O que uma Escritora Carismática pode nos Ensinar sobre Lesbiandade, Disciplina e Liberdade

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Ana Libânio fala sobre a importância do protagonismo feminino em sua obra e os livros que estão por vir

 
Apenas para começar, ela é roteirista, escritora, tradutora, maratonista nas horas vagas e autora do romance “A história de Carmen Rodrigues”.

Uma das mentes mais interessantes da atualidade, Ana Libânio é dona de uma personalidade carismática e, vez ou outra lança nas redes, para o prazer de seus seguidores e amigos, reflexões sobre todos os temas possíveis — intituladas por ela mesma como “Elucubrações Libânicas”.

Sobretudo nos tempos obscuros pelos quais passamos, é fundamental estarmos atentos àquelas pessoas que, de formas imprevisíveis e criativas, estimulam a conscientização acerca dos principais dilemas contemporâneos, seja através da arte ou de seus próprios atos cotidianos.

Ana, certamente, está entre aquelas que merecem toda a nossa atenção.

A seguir, acompanhe a entrevista que ela concedeu para o Reversa Magazine, na qual passeamos por vários assuntos, como a lesbiandade dentro e fora da literatura, seus estudos sobre gênero e sexualidade, suas referências para o pensamento e a vida, seus projetos atuais e futuros.

Com vocês, Ana Libânio:
 

Reversa Magazine: Entre várias atividades, você é roteirista, mãe, novelista, esposa, tradutora, atleta, revisora, dramaturga, professora. Como você se organiza para o desempenho de todas essas funções em um mundo em que as pessoas reclamam da crescente falta de tempo?

 
Ana Libânio: Quando Renato Russo cantou que disciplina é liberdade, não acreditei.

Hoje afirmo:

Ele sabia do que estava falando.

Se nos organizamos, conseguimos aproveitar ao máximo o tempo que temos.

Gosto de pensar que, como tudo o que existe, viemos do caos e cabe a nós mesmos escolher se e como organizá-lo.

E gosto mais ainda da ideia de que o caos organizado forma um universo infinito onde temos liberdade para fazer o que verdadeiramente nos propomos a fazer.

Certa vez escrevi que “uma história é um tecido alinhavado por elementos da narrativa, há que se costurar bem, para não criar buracos nem deixar pontas de fios soltas, nessa costura, o mais importante é como usar os fios que temos.”

Viver é escrever, tecer a própria história, e, nessa escrita, é sempre importante observar como usamos os fios que temos disponíveis.
 

Reversa Magazine: Em meio ao exercício de diferentes atividades — o que, imagino, não deva ser algo novo em sua vida — qual foi a porta de entrada para a literatura?

 
Ana Libânio: Minha memória mais antiga é de quando eu tinha quatro anos:

Meu pai lia histórias para minha irmã e eu dormirmos.

Acho que tudo começou aí.

Meu pai e minha mãe abriram a porta e me deixaram voar.

Você tem razão:

Minha vida sempre foi agitada.

Mas sempre tive um caderno comigo e nele eu escrevia meus pensamentos.

Certa vez, peguei a máquina de escrever de meu pai e comecei a datilografar a história de uma princesa. Tinha dragão, herói e desafios.

Intuitivamente criei um texto que contava a “jornada do herói”, conforme descreve Joseph Campbell.

Não porque eu era uma criança prodígio, mas porque essa coisa de contar história é inerente ao ser humano.

Chamar de literatura é uma maneira de formalizar o que fazemos desde tenra idade.

A literatura está no meio de nós! Ela nos cerca. Ela nos sustenta.

Mas a gente precisa trazê-la para perto, explorá-la, usá-la. Organizá-la.
 
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Reversa Magazine: De que forma seus estudos de mestrado e especialização (sobre literatura produzida por mulheres e sobre gênero), influenciaram e influenciam a sua produção artística?

 
Ana Libânio: Mais especificamente, estudei o feminismo, questões de gênero e sexualidade, fiz formação em direitos humanos e, informalmente, dedico tempo à leitura de textos de psicanálise, sobretudo, gosto de estudar sobre psicopatas — os serial killers me fascinam.

Certamente meus estudos exercem influência sobre tudo o que faço — desde minha produção artística a minha caminhada descompromissada pela cidade.

É impossível olhar para o mundo sem pensar nas questões às quais me dedico. Por isso dizem que “a ignorância é uma bênção”!

A partir do momento em que você busca determinado conhecimento, você se torna outra pessoa e enxerga o mundo pelas lentes do que aprendeu.
 

Reversa Magazine: Sua vivência pessoal, somada aos estudos acadêmicos, oferece a você uma visão única — ou, como você costuma dizer, “libânica” — que marca a sua individualidade como escritora e roteirista?

 
Ana Libânio: Penso que é assim com todo mundo.

“Tudo é dito por um observador”, escreveu Humberto Maturana.

Ou, como escreveu Anaïs Nin, “não enxergamos as coisas como elas são, mas sim como nós somos”.

Naturalmente, o que vejo é resultado de minhas experiências; o que você vê, é resultado das suas e é por isso que existem tantas opiniões distintas e essa diversidade, que torna o mundo tão rico, tão belo.
 

Reversa Magazine: No seu primeiro romance, “A história de Carmen Rodrigues”, houve a preocupação ou o interesse em retratar a lesbiandade nos dias de hoje? Você abordou o tema de acordo com uma tradição, já praticada por outras escritoras, ou a partir de uma visão ou linguagem relativamente próprias ou inéditas?

 
Ana Libânio: Sim.

Escrevi o livro com a intenção de retratar a vida de uma mulher lésbica.

Na realidade, não me preocupei com tradição de escrita. Eu queria escrever para expor o tabu da sexualidade, para abrir a discussão.

Pensando nisso, escolhi fazer uma mescla composta de experiências pessoais e relatos diversos para construir a história de uma mulher chamada Carmen Rodrigues.

Eu queria abrir a porta do imenso armário onde a sociedade insiste em esconder homossexuais, mesmo (ou principalmente) quando eles e elas saem desse armário.

Eu queria dizer para as pessoas que sexualidade não é problema, não é doença, não é algo do qual devemos ter vergonha.

Queria falar de relacionamentos, de maternidade, de homofobia, transfobia, radicalismo religioso e preconceito racial; mas, sobretudo, eu queria falar que amor vai além do conceito heteronormativo de relacionamento.

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Reversa Magazine: Em algum momento você teve o receio de não ser compreendida pela comunidade lésbica? De maneira geral, como o livro foi recebido?

 
Ana Libânio: Não tive esse receio.

Sei que tudo o que fazemos irá encontrar apoio e rejeição. Impreterivelmente. Até o maior dos escritores ou a mais premiada das obras literárias tem quem não goste. Isso é normal.

Até hoje só recebi mensagens de apoio, carinho e admiração.

A história de Carmen Rodrigues foi bem recebida (escrevo isso com um largo sorriso no rosto!).

Sei de apenas uma pessoa que não gostou do livro a ponto de rasgá-lo. Foi o pai de uma garota no norte de Minas Gerais. Ele disse que não queria a filha lendo aquele tipo de coisa.

Quem me contou foi a amiga da garota que ficou sem o livro que emprestou.

Achei muito triste, não pelo livro, não por mim, mas por essa menina que, provavelmente, vive em um ambiente sem diálogo — meu receio é que pais assim podem ser hostis e criar um ambiente sem amor e respeito pelo indivíduo.
 

Reversa Magazine: Como você vê a representação das lésbicas na literatura brasileira contemporânea? É muito sonho pra pouca realidade ou vice-versa?

 
Ana Libânio: Desmistificação ou reforço.

A literatura se coloca diante da realidade para reforçar ou desconstruir (pré)conceitos.

Repito:

E pergunto:

Como realmente somos?

Porque penso que lésbicas não são todas iguais, assim como mulheres heterossexuais não são todas iguais.

Não somos, em geral, iguais.

Então, o que a literatura faz é permitir a quem lê subir na escrivaninha e olhar o mundo de um ângulo diferente, maior, e se sentir forte para permanecer naquela posição, ou voar ainda mais alto, ainda que alguém tente fazer essa pessoa descer e se enquadrar em um padrão.
 

Reversa Magazine: O papel dos artistas / escritores é fundamental para que não haja a perpetuação de estereótipos e conceitos limitantes. Como você direciona a sua produção artística nesse sentido?

 
Ana Libânio: Tenho um mantra:

“Eu sou agora”.

Amplio isso para você é agora, ele é agora, ela é agora.

O que isso quer dizer é que pessoas não são objetos prontos, não estamos terminados.

Os seres humanos estão em constante construção — individual.

Vivemos em sociedade, mas somos, em primeiro lugar, indivíduos dotados de experiências únicas.

Ou seja, somos agora, porque no próximo minuto já seremos outras pessoas.

É dessa maneira que me relaciono, ou seja, com o íntimo, com aquilo que está abaixo da casca, da máscara social, e dessa maneira não parto de pressupostos ao me relacionar — tanto com pessoas reais quanto com personagens.

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 Reversa Magazine: Atualmente você está trabalhando em um novo romance. A homoafetividade estará presente na obra? O que o público pode esperar do novo livro?

 
Ana Libânio: Não.

Este será um romance completamente diferente do primeiro!

A começar pelo gênero literário.

Até existe, na história, uma situação que poderão tentar rotular como homossexualidade, mas não é. Trata-se de outra coisa!

No entanto, sigo com o protagonismo feminino.

Acho que posso dizer que isto é uma característica minha: escrever protagonistas mulheres.

Ou, se não for mulher, tento criar personagens fluidas, que, podemos dizer, transitam entre os dois sexos ou entre diferentes gêneros — porque isso me fascina e minha utopia (uma delas!) é um mundo sem rótulos, sem que as pessoas sintam necessidade de identificar o outro por sexo e/ou gênero.
 

Reversa Magazine: Você sente alguma resistência por parte das editoras em publicar livros que apresentam a temática homoafetiva? Você pretende lançar seu novo livro por uma editora convencional ou por uma especializada em livros LGBTs?

 
Ana Libânio: Quando terminei de escrever A história de Carmen Rodrigues e enviei o original para editoras, notei isso.

Recebi algumas respostas que indicavam claramente não ser o tema algo que a editora publica.

Mas, sinceramente, não acho que seja um caso de preconceito, per se.

Talvez seja muito mais uma questão de mercado, já que o público é menor.

O próximo romance não é de temática LGBT, então imagino que o processo venha a ser bem diferente da publicação de A história de Carmen Rodrigues.

Reversa Magazine: Há outros novos caminhos à vista? O que mais Ana Libânio prepara para nós?

Meu primeiro livro de contos será publicado agora pela editora Quintal, com lançamento previsto para janeiro de 2018.

Depois disso será o momento de pensar a publicação do novo romance.

Em seguida, começarei a escrever o terceiro — a história já está crescendo nesta minha “criminal mind”!

Além disso, estou trabalhando na adaptação para o cinema do romance “Interlúdio”, de James McSill e tenho um projeto para o teatro — tradução e adaptação de um monólogo da dramaturga nova-iorquina Jeanette L. Buck.
 
 
Imagens: Ana Libânio // Elizabeth Monteiro.
 
 

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