As Mãos de Pólvora de Bruna Mitrano

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A poeta e artista plástica carioca fala sobre suas inquietações e expressões, suas vivências, seus medos e mulheres – e sobre aquilo que precisamos abortar em nós

23 de março de 2017.

Pelos contrastes de uma São Paulo abafada, meu relógio se inclina às dores, treze horas e vinte minutos, suor na tez de mulher.

Buzina.

Tem um mendigo a gritar, acho que ele quer um abraço e disse que me ama.

Pego o celular no bolso e me ajeito numa pilastra bege de um edifício frio.

Resposta em áudio pelo Messenger.

É a poeta e artista plástica Bruna Mitrano.

No dia anterior, a convidei para uma entrevista para o Reversa Magazine.

Play.

Na voz rouca as palavras quase não existem.

As coisas se contorcem, Mitrano não consegue emitir sons limpos, apenas aprecio o sotaque carioca e o timbre que parece judiado por alguma dor que eu não compreendo de cara.

Alguns minutos depois recebo outro áudio, o qual me clareia as ideias e confessa apenas o que me cabe à alma saber.

E vejo os destroços de uma construção-mulher a me embalar nos confins de um ótimo roteiro.

Não sei se respondo e a surpreendo com minha voz suave e meu sotaque enjoado, por fim, me calo e vou estudar essa poeta e desenhista que me perturbou com apenas alguns minutos de conversa.

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10 de abril de 2017.

Ainda não esbocei nada para a entrevista, já tenho tudo edificado na cabeça, mas algo quer desmoronar.

Atraso os prazos e freio os dias.

Bruna precisa de remédios.

Combino de enviar pelos Correios quando o psiquiatra liberar as minhas cartelas.

E seu bairro tem por nome o dourado do altar que promete redenção aos que se curvam e se calam.

Estranho.

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Quando nos deparamos com a obra visual de Bruna Mitrano, podemos sentir o calor que nos remete ao pós-impressionismo de Eugène-Henri-Paul Gauguin, ao primitivismo e ousadia de Jean-Michel Basquiat e ao tormento desesperador de Frida Kahlo.

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Corpos que se decompõem e se estruturam na frente do espectador.

Mulheres a se devorar e a se proteger, a violência do humano no que é grito traduzido pelo lápis forte de Mitrano, algo a se denunciar. Tudo são tendões esticados ao limite, fome, dores e grito.

A artista consegue fazer com que o cheiro de seus corpos moídos, convulsionados e marginalizados, porém, de nenhuma maneira fracos, seja sentido de forma intensa e assustadora.

Devorei Mitrano com a boca esfolada pela fome nos quadrantes de cimento de uma cidade que não é casa. Ela me doeu o corpo e me saltou aos olhos, mulher dos traços que embalam os nãos que roncam na boca do estômago.

Não diferente de sua arte, a poesia de Bruna também é orgânica, urgente, dolorida, quente e contestadora.

“a impertinência da cura.
tenho as gengivas
suturadas à mostra.
de medo: tormenta

[mãos de pólvora afagando o fogo]”

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Camila Passatuto: Bruna Mitrano não parece ser uma poeta ou artista que possui o academicismo como fonte ou base para a sua poesia e arte. Sentimos a intensidade de uma obra original e cruenta. Qual a fonte, em ti, que faz brotar essa produção artística e literária?

Bruna Mitrano: Oi, Camila, adorei a introdução. Te falar, ainda estranho ler meu nome e sobrenome no início de uma frase (risos).

Vamos lá. sim, busco sempre a forma mais embrionária.

O que faz brotar, olha, muita coisa me inquieta, muita mesmo, e por algum motivo, talvez uma tentativa (frustrada) de respirar, quero sempre transmutar essa inquietação em imagem, seja desenho, foto, filmagem, palavra-imagem.

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Camila Passatuto: As tuas denúncias através da poesia tem como característica a proximidade da voz da poeta com a vítima de um sistema, ou de uma aflição, que é representada em suas palavras, o que faz com que o leitor quase chegue a pensar que o ser que narra é cúmplice, ou vivente, das mazelas expostas. Isso ocorre mais pelos resultados de vivências ou de observações?

Bruna Mitrano: Alguém disse que a poesia deve caminhar pra uma impessoalidade. Acho que a poesia não deve nada.

Tem experiências, observações; e tem muito de surto.

Quando comecei a escrever, nem eu sabia que as mazelas estavam tão expostas. Pra mim, a loucura, a morte, o aborto, a pobreza são coisas cotidianas, por mais duras que sejam.

É uma poesia política, como toda poesia é, como toda criação, gesto, mas quem lê percebe que não é panfletária. Milito em várias causas. Essas não são temas da minha poesia, elas estão ali, mas não objetivamente.

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Camila Passatuto: Nos dias de hoje, a literatura e a arte têm seu resultado imediato? Ou você acredita que toda resistência e provocação produzida agora só irá gerar ações e reflexões quando já não estivermos mais aqui?

Bruna Mitrano: Não posso falar como alguém que tem um panorama da literatura contemporânea.

Bom, o imediatismo é um fenômeno característico da produção atual, né? Tem a ver com a multiplicidade.

E eu gosto desse bate-volta, dos mil suportes, ferramentas, do cruzamento de linguagens e do caráter efêmero disso tudo.

Como pichadora, por exemplo, gosto de imaginar que o que faço vai desaparecer ou sofrer intervenção no dia seguinte.

É claro que o que os escritores geniais fizeram ainda repercute em nós, mas acredito que ninguém fez pensando numa função futura.

Estou tangenciando a resposta, desculpa (risos).

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Camila Passatuto: A representatividade do feminino em seus desenhos é algo marcante. O que gemem aquelas mulheres?

Bruna Mitrano: Elas gemem por tantos motivos.

Desenho mulheres violentadas, como todas somos. Essa violência vai desde agressão física, estupro e outras violações do corpo, até o abandono, o silenciamento. e tem sempre algo de angústia, pra representar a agressão psicológica.

Os desenhos têm uma temática, diferente da escrita, que é mais esquizo.

Camila Passatuto: Você aborda as diferentes formas de sexualidade e de manifestações do amor na sua arte. Essa é uma forma de oferecer visibilidade e, ao mesmo tempo, de dar vazão às suas próprias experiências como artista e mulher?

Bruna Mitrano: Sim, mostrar que existem diferentes formas (lembrei daquela música, qualquer maneira…) e sobretudo mostrar que não existe forma, fórmula.

Tento aproximar amor e animalidade, é um amor de bichos. E claro, o ser mulher é uma condição que não pode ser ignorada, a arte também reproduz a supremacia homem branco hétero cristão e precisamos fazer ruir isso.

Camila Passatuto: O que te contorce a alma?

Bruna Mitrano: Eu não sei.

Camila Passatuto: Dos abortos diários que sofremos, quais os necessários?

Bruna Mitrano: É mais fácil dizer o que precisamos abortar.

Sobre sofrer o aborto, ser o passivo da ação, seria bom se fôssemos abortados dos nossos privilégios pra percebermos o quanto somos egóicos. ser expelido de um útero quentinho e confortável, romper vínculos umbilicais, essas coisas.

Bruna Mitrano (1985), autora de Não (Editora Patuá, 2016), nasceu e vive na periferia do Rio de Janeiro.
Em 2010, esteve entre os vencedores do prêmio Off-Flip.
Publicou no jornal Plástico Bolha, na revista Mallarmargens, na revista Germina, no Flanzine (Portugal), na revista Tlön (Portugal), dentre outros.
Teve textos traduzidos para o inglês no projeto Contemporary Brazilian Short Stories (Califórnia).

Imagens: Bruna Mitrano.

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