[Entrevista] Dandara: Uma Voz que Não Será Esquecida

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Diretores do curta-metragem sobre a travesti que teve sua morte filmada e divulgada nas redes sociais contam detalhes sobre o filme


Ganhador do Prêmio Canal Brasil de Incentivo ao Curta-Metragem, no Festival Mix Brasil de Cinema da Diversidade 2017, o documentário Dandara traz a história real da travesti Dandara Kataryne, que, em 15 de fevereiro deste ano, teve sua morte filmada e divulgada nas redes sociais pelos seus assassinos, em Fortaleza, no Ceará.

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Com direção de Flávia Ayer e Fred Bottrel, o filme – derivado de uma reportagem especial publicada no Estado de Minas em março deste ano – será exibido pelo Canal Brasil, que adquiriu os direitos de exibição.

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Para saber mais sobre a realização do filme e os possíveis e desejáveis impactos de sua divulgação em um canal de televisão nacional (lembrando que o Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTs em todo o mundo), tivemos uma conversa com os diretores do filme:


Reversa Magazine: Como Dandara chegou na vida de vocês?



​Flávia: Sempre me interessei muito por pautas relativas a Direitos Humanos​.

Dandara chegou na minha vida de forma totalmente inesperada.

Fomos convocados pelo diretor de redação, Carlos Marcelo Carvalho, a cobrir essa atrocidade em Fortaleza.

Embora estivéssemos em Belo Horizonte, a avaliação foi de que uma história tão horrível merecia ser contada com mais cuidado e profundidade.


Fred: Me recusei a assisti ao vídeo sobre o qual todos estavam comentando nas redes sociais em fevereiro deste ano.

Havia uma reclamação considerável sobre a forma como a imprensa, de maneira geral, estava negligenciando aquele caso chocante.

Eu e Flávia trabalhamos juntos no mesmo jornal, o Estado de Minas, e fomos escalados, pelo diretor de redação Carlos Marcelo Carvalho para ir até Fortaleza cobrir o caso.

Reversa Magazine: Como e quando surgiu a necessidade ou a vontade de fazer o documentário?


​Flávia: Durante a apuração da reportagem, percebemos que valia mais.

O Fred, que já tinha experiência com cinema, foi o grande incentivador e cuidou de cada detalhe para que a história chegasse às telas do cinema.


Fred: Surgiu quando voltamos de lá com um material que valia mais do que uma reportagem.

Refletir sobre esse caso emblemático da violência transfóbica neste país é essencial, em diferentes formatos e janelas de exibição.

Ter um documentário que pode circular por festivais mundo afora é potencializar as decorrências deste caso.

Mais pessoas precisam saber que essa barbaridade aconteceu – é a esperança de evitar que algo assim volte a acontecer.



Aproveite a oportunidade para assistir ao trailer da obra que, em breve, será exibida pelo Canal Brasil:





Reversa Magazine: Vocês já haviam trabalhado com cinema antes? Se não, como foi essa primeira experiência?


​Flávia: Sou repórter de jornal e nunca havia trabalhado com cinema.

Dandara foi uma descoberta e também a reafirmação de que há muitas formas de se contar uma história e informar a população…

Foi um grande presente começar minha trajetória no cinema com Dandara.

Acompanhar a estreia do filme no Mix Brasil foi uma experiência especialmente marcante.

Na escuridão da sala, escutávamos o choro do público.

Senti que o filme estava cumprindo a missão a que se propõe, levantar a discussão e permitir que Dandara permaneça viva, sendo sempre uma lição contra o preconceito.


Fred: Em 2014, dirigi meu primeiro curta documental, chamado A ala.

O filme venceu três prêmios na estreia no Mix (Canal Brasil de Incentivo ao Curta-Metragem, Menção Honrosa do Júri e Melhor Curta Brasileiro na Votação Popular).

Circulou por festivais em países como Estados Unidos, Portugal, Espanha, Argentina e Rússia.

Traz entrevistas com pessoas detidas na primeira ala LGBT de um presídio brasileiro, em Vespasiano (MG).

O trailer está aqui:

Reversa Magazine: Em relação à causa LGBT e, mais especificamente à população trans, qual é a importância da arte como instrumento político e de conscientização?


​Flávia: Acredito que, sobretudo em relação à população trans, essa talvez seja uma das principais formas de jogar luz sobre essas histórias, já que normalmente elas acabam distantes dos holofotes da mídia ou ficando restritas às páginas policiais.


Fred: Exercitar a empatia é essencial quando se trata de respeito ao outro.

Não estamos mais na fase da tolerância, é preciso mais, é preciso respeitar.

E, para isso, é preciso entender, enxergar com humanidade.

Poder criar narrativas que preconizem esse tipo de coisa é o que nos move.


Reversa Magazine: ​Qual foi o principal objetivo ao documentar a história de vida e morte de Dandara?


Fred: Ao fazer as entrevistas, a gente percebeu que aquela história era muito forte, muito absurda, muito injusta.

Era muito demais, sabe?

O objetivo é fazer com que a (des)humanidade desse caso seja comunicado a outras pessoas.

Ao maior número possível.


Reversa Magazine: No filme, Dandara aparece sempre pela voz e pelo olhar do outro. Qual foi sua intenção ao apresentar sua imagem apenas no final do filme?



Flávia: Na verdade, Dandara também aparece, mas a partir do plano subjetivo da câmera.

Na hora de refazermos o caminho da morte, optamos por essa perspectiva, de forma que o público também pudesse sentir a dor de Dandara naquele momento terrível. ​


Fred: A imagem de Dandara (no vídeo que viralizou em fevereiro, com as agressões e cenas de tortura) já estava por demais desgastada.

Nossa ideia foi preservá-la, mostrar o que ainda não havia sido mostrado.

Com calma, para escutar, ouvir, entender.

Conversar com quem amava essa mulher que morreu por não ter medo de ser mulher.

Embora não apresente cenas de violência explícita, o filme tem passagens difíceis, que emocionam o público.

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Reversa Magazine: Durante as filmagens e edição do documentário, quais foram os momentos mais difíceis enfrentados por você e pela equipe?


​Flávia: A parte mais difícil foram as filmagens no Bairro Bom Jardim, onde ela foi assassinada.

Trata-se de um bairro bastante violento de Fortaleza e, por isso, os moradores são muito arredios e o clima de insegurança é inevitável.​


Fred: Dandara foi levada em um carrinho de mão para morrer.

Os agressores filmaram a tortura e as cenas amadoras terminam quando eles a colocam nesse carrinho, desligam o celular e pronto.

É aí que o nosso filme começa.

Não usamos as imagens que viralizaram, mas temos uma abertura em plano sequência, com a câmera posicionada dentro do carrinho.

Isso foi filmado no mesmo local onde a cena real ocorreu.

Foi uma ideia de pré-produção usar esse plano subjetivo para simular o trajeto do que ocorre na parte não-gravada dessa história.

Prepara, visualmente, o expectador, para ver o que ele ainda não viu desse caso.

O resultado foi uma abertura que coloca a gente no lugar dela, por um minuto e meio. Nunca é fácil rever.


Reversa Magazine: Vocês chegaram a pesquisar informações sobre os assassinos de Dandara, cogitaram levantar depoimentos de suspeitos?


​Flávia: O filme foi todo filmado em março, um mês depois da morte de Dandara.

Alguns suspeitos ​sequer haviam sido presos.

Mais do que dar ênfase à forma com que ela foi morta ou mostrar quem foram os culpados, nossa intenção era contar a história de uma brasileira, amada pela família, pelos amigos, trazer a humanidade e permitir que o público pudesse se colocar no lugar de Dandara.


Fred: Nas apurações tivemos longas conversas a esse respeito com a equipe
de investigação do caso. Acho que não era interessante para o filme.


Reversa Magazine: Por parte da família e amigos de Dandara, como foi o primeiro contato? Vocês tiveram dificuldades em conseguir autorização para filmá-los?


​Flávia: Eles foram muito receptivos.

Houve uma empatia entre nós e os parentes, eles entenderam que nossa intenção era contar de forma humana a história de Dandara e consideraram que o trabalho era muito importante.

Até hoje temos contato com eles.​


Fred: Foram de uma generosidade suprema, todos eles.

Ainda sob o impacto da tragédia, abriram corações diante da câmera, esse impacto também é muito forte.

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Reversa Magazine: Como foram levantados os recursos para a realização do documentário? Receberam algum apoio?



Flávia: O documentário recebeu o Prêmio Canal Brasil de Curtas, durante a 25ª edição do Festival Mix Brasil e será exibido em rede nacional via Canal Brasil.




Fred: O filme é co-produzido pelo Jornal Estado de Minas e pela Mult, a minha produtora.

Reversa Magazine: Qual é a importância do filme ter recebido o Prêmio Canal Brasil de Curtas?



Flávia: Definitivamente, era uma história que precisava chegar na casa das pessoas e o prêmio permite que isso aconteça.​


Fred: É o melhor prêmio – com o qual nem ousávamos sonhar.

Há algo em comum entre A ala e Dandara, da forma como eu vejo:

São filmes muito simples, muito centrados em depoimentos que contaram com um nível de entrega fora do comum.

Isso gera uma via de comunicação muito clara.

Por isso a exibição na televisão faz todo o sentido.

Reversa Magazine:Quais são os próximos planos para o filme? Ele será exibido nos cinemas do Brasil?



Fred: Queremos fazê-lo circular o máximo possível.

A cadeia de distribuição de curtas no país é sempre um entrave nesses casos.

O filme certamente circulará em festivais e exibições em centros culturais.


Imagens: Filme Dandara / Festival Mix Brasil da Cultura da Diversidade.


 

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