Lisa Alves: Uma Escritora Entre a Transgressão e o Recuo

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Dona de uma obra diversificada, a prosadora e poeta mineira dá detalhes sobre o seu processo criativo e reflete sobre a condição das escritoras na atualidade


Sua escrita traz um mundo de coisas a quem, sobre ela, está disposto a se debruçar.

Lisa Alves, por sua forma inconfundível de ver o mundo, nos apresenta um trabalho literário diversificado, que transita em várias instâncias e nos conduz a um passeio surpreendente, em que o banal, o cotidiano, o ancestral, o sagrado, o descartável e o inacessível são colocados em pé de igualdade como fontes de informação e de estímulos ao leitor que, a eles, estiver aberto.

Na entrevista a seguir, a escritora mineira fala sobre projetos, seus livros, as contradições humanas, sexualidade, a temática LGBT, redes sociais e muito mais.

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Reversa Magazine: Qual foi o curto-circuito responsável pelo início da sua escrita?


Lisa Alves: A introspecção foi o gatilho.

Até certo período da minha adolescência eu era muito introspectiva e voluntariamente solitária. Escrever era o meu mecanismo de comunicação e de entendimento comigo e o mundo. Não era uma escrita consciente de si, mas sim, um germe.

O fundamental para o “curto-circuito” consciente foram os primeiros livros que me impactaram. Foi algo como “eu quero fazer isso também”.


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Reversa Magazine: O livro de poemas Arame Farpado foi a forma como muitos chegaram a conhecer a sua literatura. Nele, além da riqueza temática, vemos muitas camadas de significados, que vão do cotidiano ao ancestral, da sabedoria milenar aos sentimentos banais, do consciente ao obscuro. O que moveu esse trabalho, especificamente?


Lisa Alves: Eu gosto de coisas profundas, mas, ao mesmo tempo, não descarto a superfície.

Eu também sou fascinada pelas contradições humanas – inclusive tem um capítulo do Arame Farpado denominado “Das Contradições” onde trabalhei a experiência com ideias opostas e principalmente com a ironia.

Sou igualmente atraída pelos extremos: eu quero experimentar o fogo e o gelo, não exatamente ao mesmo tempo, pois necessito de um tempo para absorver minhas experiências.

Eu leio mitologias, amo a simbologia que cerca o sobrenatural dos personagens mitológicos, mas também bebo no materialismo dialético.

Para você ter uma ideia, teve poemas do Arame Farpado que foram escritos em períodos de luto, outros em momentos filosóficos e contemplativos; já alguns surgiram de um insight assistindo notícias televisionadas ou observando uma senhora no transporte coletivo gritando que “a vida é bélica”.

Então, posso afirmar que o que moveu esse trabalho foram minhas experiências de transgressão e recuo, porém, mais do que isso, a experiência de outros, tantos dos que permanecem trancados como A Telespectadora, quanto dos que conseguiram quebrar algumas dessas infinitas barreiras, como a Persona Non Grata.

Movimentos e pensamentos divergentes são a matéria que influenciou essa obra e principalmente o anticlímax da vida.


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Reversa Magazine: Embora a lesbiandade não seja o tema focal ou único da sua obra, podemos considerá-lo como presente em vários de seus trabalhos. Em que medida há uma vontade ou necessidade orgânica / espontânea para isso? Por outro lado, você se sente impelida a colaborar para o aumento da visibilidade lésbica por intermédio da sua literatura?


Lisa Alves: A minha necessidade de destacar a lesbiandade nasceu bem depois dos meus primeiros exercícios com a escrita, incluindo minha fase como blogueira.

Meus protagonistas, durante essa fase inicial, eram sempre do gênero masculino e acredito que isso tenha uma relação muito forte com as minhas fontes literárias da época.

O universo dito masculino e heterossexual sempre me pareceu mais livre e mais interessante. Não é preciso questionar se é verossímil descrever um homem caminhando ás três da madrugada sem nenhum tipo de preocupação de ser violentado sexualmente – já colocar uma personagem feminina motiva questionamentos.

Então, certo dia decidi analisar as fontes literárias que eu consumia e percebi o quanto certos modelos de comportamento dentro da ficção e, que muitas vezes são adaptados pelo cinema e telenovelas, tornam-se tendências estruturantes no modo de pensar de um povo. Se os protagonistas são sempre homens brancos e héteros na ficção e conseguimos apontar de forma concreta o reflexo disso na realidade – logo, há um diálogo e uma influência muito evidente.

E, igualmente, me lembro como os homossexuais foram durante anos retratados pela ficção e não é difícil notar uma característica de “estrangeirismo”. Ser diferente não é um problema, não é esse o ponto. Afinal, estamos aqui lutando pela diversidade.

A questão é o estereótipo ou a imagem alegórica que faz com que um LGBTQI, na visão coletiva, não tenha uma experiência humana diversa e que o objetivo de sua vida seja apenas viver livremente sua sexualidade e não ser um astronauta ou um ambientalista, ou ter que lidar com o desafio de uma síndrome do pânico ou de criar uma enzima da eternidade.

Se posso desconstruir o ódio escrevendo, então eu o farei. Mas, mais do que um compromisso com a “causa”, eu vejo isso como um exercício literário de criar empatia nos leitores.

Minhas personagens vivem dramas além da própria sexualidade.

A lesbiandade acaba se tornando um detalhe e não o tema central do que escrevo.


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Reversa Magazine: Com quais escritoras você estabelece hoje conexões frutíferas? Tem desenvolvido projetos em parceria?


Lisa Alves: São várias e de grupos diversos.

Tento não me fechar em uma “bolha de afins”, embora eu acredite que a afinidade seja um ponto inicial para sustentar uma conexão real.

Desde o início que comecei a “trocar figurinhas” com escritoras busquei não cair na cilada das “panelas”.

Eu acredito que as panelas uniformizam muito e você acaba sustentando um grupo pelo grupo, a literatura e a poesia perdem a prioridade.

Eu nunca estou em um só grupo ou em um só coletivo. Mas não vou deslizar na pergunta e citarei algumas de territórios, grupos e projetos diferentes só para ilustrar melhor:

Márcia Barbieri (São Paulo) foi uma cúmplice na materialização do Arame Farpado – criamos um selo e um coletivo juntas e até hoje estabelecemos um contato de parceria e confiança.

Cinthia Kriemler (Brasília) é outra grande companheira. Recentemente lançamos a antologia “Novena para Pecar em Paz” (Penalux, 2017) com mais sete autoras de Brasília.

Carol Piva (Goiânia) é uma poeta, editora e tradutora com quem converso há anos e temos muitas afinidades. Recentemente ela deu início à tradução do Arame Farpado para o inglês e cogita publicá-lo na Irlanda.

Andreia Carvalho Gavita (Curitiba) é uma poeta, bruxa, parceira. Foi ela quem me inseriu na revista Mallarmargens, depois no Coletivo Marianas, que ela fundou – um coletivo que visa a afirmação da identidade da mulher na literatura.

Sarah Valle (Campinas) é uma escritora com quem eu tenho diálogos diários, que caminham entre processo criativo, leituras, vida pessoal e projetos futuros. Inclusive, ela lança esse ano um romance de temática lésbica chamado “Arquitetura do Sim” e está traduzindo para o português a poeta feminista e lésbica norte-americana Adrienne Rich.

Bruna Mitrano (Rio de Janeiro) compõe uma poesia muito forte, tenho uma admiração imensa pela escrita dela e temos projetos juntas que ainda estão em fase de maturação.

Achei importante esclarecer qual a vinculação com elas para mostrar que as mulheres estão se conectando e que a conexão não é rasa.

Eu tenho contato com várias, de vários lugares e de vários grupos. Vivemos um verdadeiro Mulherio das Letras.


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Reversa Magazine: De que forma as redes sociais favorecem e prejudicam a literatura?


Lisa Alves: Quando penso na palavra rede, sempre visualizo duas imagens: uma de conexão e expansão e outra de captura e prisão.

Você pode usar um martelo como ferramenta de construção ou destruição.

A lógica é a mesma para a rede social.


Reversa Magazine: Você precisa de refúgios para poder produzir? Ou consegue escrever em meio ao caos?


Lisa Alves: Eu consigo me silenciar em qualquer lugar para escrever.

É um método que aprendi por não ter escolha – ou eu escrevia com o movimento e sons do cotidiano ou não escrevia.

Meus refúgios na verdade acontecem antes – na fase de preparação, leitura e laboratórios. Mas eu ainda tenho uma utopia de lugar ideal para escrever que pretendo um dia experimentar.


Reversa Magazine: A prática da literatura trouxe um entendimento maior sobre quem é você?


Lisa Alves: Talvez, mas eu não sei explicar.


Reversa Magazine: Sobre um recente projeto seu, intitulado “Funeral para Safo”, é possível dar alguns detalhes?


Lisa Alves: É um projeto poético que nasceu no segundo semestre do ano passado. Tem uma alta carga homoerótica e certo lirismo confessional, com referências atuais e arcaicas.

Ainda está no status de exercício, já que o erotismo poético é um território muito experimental para mim. Não é sobre a vida de Safo, mas uma inspiração sobre a hipótese de sua morte e a utilizo como uma representação de experiências entre personagens lésbicas contadas por uma única narradora. Também bebi um pouco na teoria de pulsões de Freud.

Os três primeiros poemas desse projeto saíram recentemente na antologia “Poesia Gay Brasileira”.


Reversa Magazine: Há outros projetos literários sobre os quais gostaria de dar detalhes?


Lisa Alves: Estou no processo de construção de um romance chamado “Minha Mãe Costurava para Travestis”, baseado em um poema de mesmo nome.

Em breve, pretendo lançar meu livro de contos “Não desperte o cão adormecido” que é sobre tempo e memória.

E a novidade é que sairá uma segunda edição do Arame Farpado pela editora Penalux, em 2018.


Imagens: Lisa Alves.


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