“Literatura lésbica não pode significar literatura menor”, diz Natália Polesso, ganhadora dos Prêmios Jabuti e Açorianos 2016

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Literatura lésbica não pode significar literatura menor, diz Natália Polesso

Em entrevista ao Reversa Magazine, escritora fala sobre visibilidade, vida acadêmica, reconhecimento e a presença de personagens lésbicas em seu premiado livro Amora

Ela ajuda a compor o retrato da diversidade encontrada hoje entre as escritoras de nosso país.

Afinal, ao contrário de reproduzir um padrão de pensamento e, por sua vez, de criação literária capaz de assegurar certa “aceitação” em um mundo (ainda) predominantemente masculino, essas mulheres-artistas-pensadoras dão vários passos além, e, mesmo a duras penas, conquistam espaço em festas, feiras, eventos, publicações, saraus e, obviamente, em grandes prêmios.

Autora de “Recortes para álbum de fotografia sem gente” (Editora Modelo de Nuvem), “Coração à corda” (Editora Patuá) e Livro Amora (Não Editora) – obra que acaba de ganhar os Prêmios Jabuti e Açorianos 2016 – Natália é, certamente, uma das vozes mais representativas da nossa literatura.

Literatura lésbica não pode significar literatura menor, diz Natália Polesso

Quer saber por quê?

Então leia a entrevista que ela concedeu ao Reversa Magazine:

Reversa Magazine: Você é doutoranda em Teoria da Literatura pela PUCRS. Como é a relação entre a Natália artista / escritora e a Natália ‘acadêmica’? Ou pra você não há uma distinção?

Natalia Borges Polesso: É uma relação difícil. Meu trabalho acadêmico está um pouco distante da minha escrita artística.

Trabalho com romance realista urbano, analiso a relação entre cidade e literatura e, especificamente, discuto as noções de cartografia, paisagem e horizonte. Isso foi o que escolhi como tema da minha tese, mas minha curiosidade teórica caminha por todos os lados.

Quero pesquisar literatura LGBT, meios de divulgação, quero pesquisar mais sobre personagens e narrativa, enfim, coisas que se aproximam mais da escrita. Talvez isso seja influência da vizinhança com o curso de Escrita Criativa que a PUC-RS oferece e do qual participei em algumas matérias.

Sobre a dificuldade que apontei no início, preciso sempre ter o cuidado, dentro do espaço da teoria, para não acabar sendo ficcionista (risos).

Não que isso seja algo ruim de todo, mas, (né?) é bom ter essa noção.

Reversa Magazine: O que a motivou a ingressar no caminho acadêmico? Você acredita ser essa uma das alternativas de carreira ‘possíveis’ para escritores, especialmente no Brasil?

Natalia Borges Polesso: Nem todo/a escritor/a é acadêmico/a (graças à deusa).

Minha primeira opção era Medicina, mas eu não posso ver sangue que desmaio.

Minha segunda opção era Letras, porque eu amava inglês (sou professora de inglês ainda hoje), então meio que fui indo.

Quando terminei a graduação – o que demorou oito anos, porque na época não tinha bolsa, nem ProUni, nem nada do que se tem hoje e que vamos perder logo, logo, por causa dessa #PECdofimdomundo – dei um tempo pra pensar no que queria e casualmente ganhei de uma amiga um livro de uma escritora que nunca tinha ouvido falar: Tania Faillace.

Decidi que trabalharia com ela no mestrado.

Li toda a obra da mulher, incrivelmente profícua, mas totalmente apagada e, quando vi, já tava mandando projeto para um doutorado em Literatura e Cidade.

Acho que fiz uma baita digressão.

Mas, enfim, queria dizer que minha opção acadêmica é mesmo pela pesquisa e por trabalhar com ensino de literatura.

Carreira de escritor tá brabo. Com 7 a 10% de direitos autorais pagos de seis em seis meses, fica difícil viver de escrita.

Estar no meio acadêmico me possibilita jogar com ambas as opções: ser professora e ser escritora.

Reversa Magazine: De alguma forma, seus livros “Recortes para álbum de fotografia sem gente” (Editora Modelo de Nuvem), “Coração à corda” (Editora Patuá) e “Amora” (Não Editora), têm alguma relação com o foco dos seus estudos?

Natalia Borges Polesso: Nenhuma. Não que eu consiga ver. Ao menos não com meus estudos formais acadêmicos, mas é claro que os livros são pensados e feitos com uma dose de curiosidade “científica”.

Por exemplo, o Recortes saiu, em maior parte, de textos que eu publicava no meu blog, trabalhados um por um pra publicação, ali o experimento foi de prosa poética.

O Coração à corda surgiu de um interesse por poesia, ele é uma tentativa de um fazer poético.

O Amora está recheado de pesquisa sobre narrativa, ponto de vista, personagens…

Enfim, não estão necessariamente vinculados à minha pesquisa de doutorado, mas a campos de estudo sobre os quais sou curiosa e busco aprender.

Literatura lésbica não pode significar literatura menor, diz Natália Polesso

Reversa Magazine: Embora os escritores ainda sejam maioria, esse ano várias autoras brasileiras foram destaque em diferentes premiações. Você acredita que isso seja um sinal de que aos poucos as mulheres estão conquistando espaço em um cenário que antes era quase que exclusivamente masculino? Ao que você atribui essa abertura?

Natalia Borges Polesso: Quero acreditar. E é por isso que não dá pra parar de se posicionar, de marcar posição criticamente, de fazer textão no Facebook, até, se necessário.

Estamos ganhando mais terreno devido às nossas lutas, a pesquisas acadêmicas, à descoberta de saraus, a revistas.

Acho que estamos nos apoiando mais, e criando uma espécie de resistência questionadora. Isso é maravilhoso.

O resultado pode ser visto em publicações, em premiações, mesas em feiras e festas literárias.

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Reversa Magazine: Como foi, exatamente, o instante em que você soube que tinha ganhado o Jabuti e, ainda mais recentemente, o Prêmio Açorianos? Rola aquela sensação de reconhecimento (finalmente) recebido?

Natalia Borges Polesso: Passei o dia dando refresh no site, assim como muitos amigos meus. Lá pelas nove da noite eles começaram a me perguntar se eu tinha sido avisada de algo.

Então comecei a ver gente comemorando no Facebook e pensei: saiu!

Quando minha namorada me mostrou no site que meu nome estava em primeiro lugar, o que ocorreu foi o seguinte: comecei a gritar “não pode ser” repetidamente, aí ela me abraçou, minha irmã gravou o melhor áudio de WhatsApp de todos os tempos pra avisar os amigos, eu estourei um espumante e tomei no bico (tava meio quente e saiu pelo nariz, mas não me importei, ficou uma mancha no chão da sala), meia hora depois meus amigos estavam lá em casa e foi tudo lindo.

O Açorianos é revelado na cerimônia, e uma grande amiga minha, a Camila Gobbi, também era finalista com o livro Escombros e outros pedaços de coisas no chão, ficamos de mãos dadas e nos abraçamos, foi bem emocionante.

Quanto à sensação de reconhecimento, ela já rola quando você é indicado, pra mim, ao menos.

Comemorei as indicações como se já fossem o prêmio.

É muito massa estar nessas listas, dá muita visibilidade.

Reversa Magszine: Seu livro de contos “Amora” (ganhador dos prêmios Jabuti e Açorianos de 2016) traz a temática lésbica sem, contudo, ser rotulado como ‘literatura lésbica’. Para você, é importante nos inserirmos naquela que podemos chamar de ‘grande literatura’, com liberdade total para escrever sobre a homoafetividade feminina, sem, contudo, apelar para estereótipos que podem trazer limitação ao invés de favorecer a inclusão?

Natalia Borges Polesso: É muito importante.

Literatura lésbica não pode significar literatura menor. O tema não está diretamente relacionado à qualidade, não pode estar. Minha escolha com relação às protagonistas, mulheres lésbicas, além de ser política, é estética.

Política porque somos parte da sociedade, estamos integradas, não há um mundo gay separado, ou como levantamos esses dias em uma mesa redonda, “um universo lésbico” (risos), quero morar lá!

Até onde eu sei, nós habitamos o mesmo mundo. Estética porque escolhi este ponto de vista para explorar artisticamente.

Acho necessário que haja a tomada de uma posição mais crítica quanto ao rótulo, mas também acho que ela precisa estar sustentada artisticamente.

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Reversa Magazine: Você acredita na importância de ações de fortalecimento e apoio entre escritoras como uma das saídas para que a nossa literatura tenha maior visibilidade?

Natalia Borges Polesso: Acredito. Acredito muito nessa força de redes.

Uma coisa muito legal de ter ganhado o Jabuti foi a imensa procura e contato de outras escritoras ou de pessoas que trabalham com literatura LGBT.

Ainda não consegui me organizar quanto a isso, defendo minha tese de doutorado agora em janeiro de 2017, então estou num momento bem alucinante da vida (risos), mas é algo que eu quero organizar, fazer algo a respeito. Sei lá, uma coletânea, quem sabe.

Vou precisar de parcerias!

Natalia Borges Polesso

Reversa Magazine: Desde quando você lançou seu primeiro livro, o que mudou na sua forma de pensar e fazer literatura?

Natalia Borges Polesso: A consciência do processo criativo mudou bastante e é muito interessante ir adquirindo mais autonomia e mais sensibilidade no fazer da literatura.

Claro, há coisas que permanecem, e que são aleatórias, por exemplo, eu faço mil rabiscos e anotações em lugares diferentes até chegar a uma ideia mais substancial. Isso eu ainda faço, e deve ser algo comum a quem trabalha com escrita.

Assim como há alguns contos que saem prontinhos da cabeça pro papel.

Agora tenho pensado mais nas escolhas técnicas mesmo, e tenho me feito propostas esdrúxulas como exercício (risos).

Reversa Magazine: Se houver algum livro seu a caminho, pode contar algo sobre ele?

Natalia Borges Polesso: Não há exatamente um livro a caminho, mas há uma ação literária, terrorismo poético, que mais tarde levará a um livro, não sei, por enquanto são muitas anotações e rabiscos em caderninhos.

Quanto à ação, estou planejando para o verão. O que posso dizer é que minha pergunta motivadora foi: o que faz uma mulher?

Reversa Magazine: É impossível não ter curiosidade sobre suas influências literárias. Quem foi e é fundamental? Há boas descobertas recentes?

Natalia Borges Polesso: Leio de tudo. Tenho os meus do coração: Julio Cortázar, Jorge Luis Borges, Lewis Carroll, Lygia Fagundes Telles, Chimamanda Ngozi Adichie.

Das boas descobertas recentes, tenho muitos nomes de mulheres que me arrebataram com seus escritos. Das poetas: Angélica Freitas, Marília Garcia, Ana Martins Marques; das ficcionistas: Veronica Stigger e Paloma Vidal.

Foto de Natalia Borges Polesso clicada por Amanda Gracioli // Foto de Natalia Borges Polesso com a sua obra Amora clicada por Diogo Sallaberry – Agencia RBS (imagem extraída do Google Imagens) // Foto de Natalia clicada por Roni Rigon (imagem extraída do Google Imagens).


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