Conheça as 3 Graças Avessas da Música Underground Paulista

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Saiba Porque Elas Estão Revolucionando a Cena Indie com suas Bandas, Projetos, Álbuns e Ideias


Poderíamos listar aqui dezenas de motivos determinantes para que elas tenham escolhido o caminho da música underground:

– Para fortalecer a si mesmas e outras mulheres;

– Para lançar suas vozes e gritos a todos os cantos;

– Para gerar doses iguais de deleite e incômodo;

– Para fazer pensar ou porque, simplesmente, querem tocar, cantar, subverter e criar, lançando aos ares seus desafios em forma de composições.

Marianne, Amanda e Elaine: aqui elas são apenas três, mas poderiam ser trezentas, três mil até.

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A cena musical underground do país agrega hoje um número crescente de mulheres e minas dispostas a derrubar barreiras e preconceitos em um ambiente historicamente dominado pelos homens.

Ou em que as garotas sempre foram minoria – ou apenas backing vocals – ou mero enfeite.

Atualmente, há mulheres em toda parte, criando suas próprias bandas, compondo e produzindo seus álbuns e tocando em festas, reuniões e festivais, nos porões da cidade ou em grandes palcos, sempre tendo a sister Internet como uma das mais fortes aliadas para a divulgação e propagação de sua arte e mensagem.

Marianne Crestani, criadora e (obviamente) única integrante da monobanda Bloody Mary Una Chica Band, hoje guitarrista na lendária banda paulistana As Mercenárias, (além de uma das organizadoras do projeto Girls Rock Camp Brasil), fala sobre o início de tudo:


“Minha mãe é professora de artes aposentada de escola estadual, cresci ao redor de livros de arte, desenhos, exposições, quadros que ela mesma produzia”.

“Assimilei rápido que existiam várias maneiras de expressão, sem ser necessariamente a fala, e me identifiquei com isso.




“Eu era uma criança bem tímida, estressada e, juntando isso com a revolta e as insatisfações da vida, foi bem natural me conectar com o rock de garagem, o punk, na época também o grunge, e, consequentemente, querer tocar guitarra e fazer música.”

“Comecei a fazer música aos 16 anos, com um violão emprestado da minha tia, junto com uma amiga de escola, a Megssa, com quem toquei nas minhas primeiras bandas”.

Marianne Crestani

Como monobanda, suas inúmeras influências passam pelo country blues, garage rock e fuzz.

Ou, como ela mesma diz “pessoas loucas interessantes que tocam sozinhas”, tais como Margaret Doll Rod, Two Tears, Jessie Mae Hemphill, Esmeralda Strange, Abner Jay.

Marianne Crestani

“O que me inspira diretamente são musicistas e músicos ao meu redor, como Fabulous Go Go Boy From Alabama, The Biggs e por aí vai. Mas, na vida, curto muita coisa.

Marianne Crestani

“Eu amo música e tudo pelo que eu me apaixono pode se transformar numa influência. Prefiro até chamar isso de inspiração do que influência, porque podem ser, inclusive, lances fora do mundo musical”.

De Balão Mágico a Villa Lobos




Amanda Rocha, da banda La Burca, revela qual foi sua primeira motivação musical, com a qual teve contato no alto de seus seis anos de idade.


“Quando eu ouvi a Simony e o Balão Mágico, pensei: vou ser cantora. Foi algo natural, cresci com meu pai tocando piano exaustivamente, muita música clássica e brasileira, mas fui pro lado punk da força.”




Sobre suas principais influências, ela cita algo mais do que Balão Mágico:

“Punk rock, grunge, guitar bands, Patti Smith, postpunk, no-wave, krautrock, neil youngismos, hermetismos pascoais, Villa Lobos, Milton Nascimento… é uma zona livre/autômona sonora. Ainda bem”.

Amanda Rocha

Quando questionada sobre os temas de suas canções e se suas composições estimulam, mesmo que indiretamente, a conscientização, Amanda esclarece:

“É tudo o que vem do coração, mana. Sou uma punk tosca romântica incorrigível. E canceriana. Aff, sofrência rules! Mas há temas de bandeiras queimando, liberdade, amor entre mulheres, ou melhor, ode a elas, e olhares tortos-sangue-nozóio, claro. Sempre aprendi muita coisa com letras e canções. Às vezes até melhor do que em um divã”.

Amanda Rocha

No que Marianne completa:

“No caso da monobanda, minha inspiração maior são as relações humanas, os impulsos, o sangue… mas não me sinto presa a nenhuma temática. A inspiração pode vir de diversas fontes”.

Para ela, assim como qualquer tipo de arte, a música sempre traz consciência.

“Isso ocorre tanto de forma indireta, quando somos consumidores passivos, como de forma direta, com músicas que são claramente sobre política, por exemplo. No Girls Rock Camp Brasil, projeto do qual faço parte, dá pra ver isso na prática. Tudo depende do quão atenta a pessoa está para isso. Mas são afetadas, de alguma forma”.

Girls Rock Camp Brasil

“Também acredito que a música pode ser um ritual, diversão ou celebração. É um lance tão fluido, que pode estar em várias situações e agir nas nossas cabeças e corpos de inúmeras formas”.

Música & Consciência Política




Elaine Campos, vocalista da banda punk Rastilho, conta que começou a cantar e tocar influenciada por bandas de metal e punk, gêneros musicais que continuam predominando no Rastilho, sua banda atual:

Rastilho – Propaganda
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“O punk, pra mim, sempre foi algo maior e mais profundo, para além de um gênero musical.”

“Nesse sentido, acredito que fui influenciada pela cena toda, pelo senso de comunidade, no qual bandas e pessoas tinham (e têm) uma forma organizativa totalmente independente e autônoma”.

“A formação da minha identidade política, a forma como me posiciono e me expresso sobre os temas sociais, seja nas letras da banda ou escrevendo textos, vem das minhas vivências em espaços políticos, participando de coletivos anarquistas e feministas, especialmente através do movimento anarco-punk de São Paulo, a partir da metade da década de 1990”.

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A vocalista acredita que a música pode ser um instrumento para a conscientização, especialmente político.

“Todos, de alguma maneira já temos envolvimento em algum campo político da esquerda, seja militando em organizações sociais, seja participando de coletivos ao organizar eventos culturais independentes, escrevendo, produzindo outras bandas”.

“Nesse sentido, nossas composições acabam trazendo nosso entendimento sobre diversas questões que são pertinentes no mundo hoje, sobretudo pautando as lutas sociais e populares por um mundo mais justo. De certa forma, a música aproxima e empodera as pessoas, estimulando-as a refletir sobre algo que acontece.”

Elaine Campos

Às vezes tudo está tão perto, mas as informações midiatizadas acabam criando esse distanciamento. Assim tem sido com muitas pessoas que se envolveram com o punk. Buscamos em nossa ‘forma de vida’ existir de maneira diferente daquela imposta pela sociedade”.

Prós e Contras da Cena da Música Underground




Escolha ou única opção, o meio musical alternativo (ou indie) pode ser o “terreno dos sonhos” para muita gente que quer e precisa estar longe da grande mídia, em um ambiente de maior liberdade e sem tantas restrições de comportamento e pensamento.

E para as mulheres e suas bandas, resta sempre a dúvida sobre como é, de fato, viver e produzir nesse meio.

“Algumas pessoas tem a impressão que o underground é um momento pré-mainstream, mas, na real, é um campo de liberdade criativa muito grande, bem vivo e estruturado”, explica Marianne.

Bloody Mary Una Chica Band – Sugar
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“Eu me considero profissional do underground, lo-fi perfeccionista. A parte difícil é conciliar as necessidades de sobrevivência com a arte, mas, tirando isso, acho que só se tem prós”.

“A música underground sempre foi um terreno fértil no mundo todo, com o faça você mesma no coração e a necessidade de produzir simplesmente pela cultura e arte. Você não produz porque tem uma obrigação ou um contrato, mas porque precisa se expressar ou desenvolver profundamente uma brisa”.


“Também acredito que bons momentos fazem parte de um ciclo. Hoje no Brasil estamos num momento muito foda com bandas muito boas, selos e festivais”.

“O lance tá fervendo e é muito massa ainda estar na ativa, participando de alguma forma de tudo isso”, diz a artista da Bloody Mary Una Chica Band.

Para Amanda, “esse é o único meio em que sei fazer música até agora. É um jeito de ser também. Ah, existem coisas legais… mais liberdade de alguma forma, porém, há mais amadorismo também”.

O problema é ficar restrito e se conformar somente com esse circuito. Pior ainda é se conformar em tocar só em uma cidade e cena. Há uma cena enorme no Brasil do golpe, o lance é fazer contatos, ter bandas parceiras, selos que se conectam…”

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“É isso o que buscamos, circular, nos inspirar… porque é incrível a qualidade e a diversidade de bandas que estão no underground”.

“O foda é ver isso às 5 horas da manhã. Acho que estou ficando um tanto velha também, são suas décadas já no meio. Às vezes cansa. Oroboro-romântico-sonoro-utópico. Mas continuo na luta”.

La Burca – Flowers of Romance
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Já Elaine é bem específica sobre os princípios e a ideologia do movimento punk.

“Embora existam novos fluxos, o punk tem como marco histórico fazer parte de uma movimentação contestatória nas dimensões artística, econômicas e sociais”.

“Nesse sentido, o punk sempre rejeitou a indústria da música e os seus procedimentos, as formas de controle e divulgação tradicionais, a estética padronizada, construiu um caminho completamente oposto, seja através da cultura do faça-você-mesmx (DIY – do it yourself), produzindo e divulgando de forma alternativa, promovendo seus próprios materiais e shows”.




“E esse sentido, vejo a escolha por um cenário totalmente underground como algo positivo, tendo em mente que propositadamente o que se visa é continuar desafiando a ordem estabelecida, edificando, assim, um estilo contracultural”.

O Que Vem Por Aí




Nossas três graças reversas têm muitos planos para os próximos tempos, envolvendo projetos musicais e extramusicais.

“Um projeto futuro que já está sendo feito é um documentário chamado ‘Todas as Meninas Reunidas, Vamos Lá’ sobre o Girls Rock Camp Brasil. Tô divulgando aqui em primeira mão!”

A estreia é por meados de dezembro nos cinemas. Eu sou montadora e finalizadora do documentário e tá ficando lindo demais”.




“Fora isso, tem algumas novidades vindo com As Mercenárias e, provavelmente, vou ter um lançamento como Bloody Mary Una Chica Band no ano que vem”, conta Marianne.

Amanda aponta novos caminhos.

“Estou montando um lance com a Sandra Coutinho, das Mercenárias, algo que há tempos planejamos e que agora vai”.

“Já com a La Burca, estamos nos preparando pra gravar sons novos. Estamos com umas três músicas no gatilho, tenho um disco novo na mente, falta dinamizar e esquematizar isso. Quem sabe, até o final do ano, surja algo”.



“Para além da banda, sou fotógrafa, militante feminista e pesquisadora da presença das mulheres na fotografia. Tenho circulado com a exposição ‘Mulheres Livres: Imagens Insurgentes, que reuniu em 2015 fotos que fiz desde 2010”, diz a vocalista da banda Rastilho.

Mulheres Livres: Imagens Insurgentes

No momento, organizo um novo projeto fotográfico que reunirá uma série de fotos minhas das manifestações e espaços de resistência e visibilidade lésbica”, finaliza Elaine.




Imagens: Facebooks > Banda Rastilho, La Burba, Bloody Mary Una Chica Band, Marianne Crestani, Amanda Rocha e Elaine Campos; Google Imagens, Site Girls Rock Camp Brasil, Erick Cruxen e Lauro Kushiyama e trabalho fotográfico ‘Mulheres Livres: Imagens Insurgentes’, de Elaine Campos.



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