Myriam Campello fala sobre sua Carreira, Feminismo, Personagens Gays e Lésbicas

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Nesse bate-papo, Myriam Campello, escritora e tradutora carioca, que agora lança o livro de contos “Palavras são para comer”, fala também sobre preconceito e mercado editorial

Ela foi uma das primeiras escritoras brasileiras a incluir personagens lésbicas e gays em suas obras.

Teve um livro adaptado para o cinema.

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Viveu o feminismo na Nova York dos anos 70.

Foi amiga de Caio Fernando Abreu.

Traduziu obras de autores como Stephen King, Alexandre Dumas e Virginia Woolf…

E ainda reserva um ótimo conselho para escritores em início de carreira.

A escritora carioca Myriam Campello tem muita história a contar e ainda muito a criar.

A cada novo livro, a autora se reinventa e colabora para que a literatura brasileira seja mais diversificada, conectada ao tempo que corre, às mudanças, às emoções que acompanham as mudanças, à alma da gente.

Para saber mais sobre a trajetória e o pensamento da autora que, nesse mês, lançará o livro de contos “Palavras são para comer” (Editora Oito e Meio), leia o bate-papo a seguir:

Reversa Magazine: Qual é a sua formação e quando você decidiu escrever ficção?

Myriam Campello: Estudei dois anos de Direito e me formei em Jornalismo.
Não sei precisar quando decidi escrever ficção, já que isso esteve presente em minha vida, de forma difusa, desde a infância.
Aliás, não sei se decidir é a palavra certa nesse terreno. Acho que a coisa se define bem antes da solenidade e clareza que o termo implica.

Reversa Magazine: Na época em que você começou, quais eram as suas maiores influências?

Myriam Campello: Nossos clássicos. Um e outro contemporâneo.
Como influência direta, Clarice Lispector, sobretudo.
Sempre li também muita ficção estrangeira, o que recomendo com ênfase aos jovens autores.

Aprendi tremendamente com a literatura universal, em todos os aspectos, pois ela se funda em culturas mais alicerçadas. É uma escola imprescindível para quem quer escrever.

Que o amor febril pelo Brasil não seja excludente. Temos que incluir em nossa ração literária as maravilhas do mundo, caso contrário vamos empobrecer radicalmente nosso aprendizado.

Reversa Magazine: Para você, faz sentido a frase “literatura é salvação”?

Myriam Campello: É uma palavra grandiosa demais, e tenho medo dessas palavras. Mas para o autor pode ser salvação, sem dúvida.
A literatura protege da ausência brutal de sentido em que vivemos, fornecendo um universo simbólico que organiza momentaneamente a tragicidade da vida.

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Reversa Magazine: Sobre o que você adoraria ter sido alertada quando começou sua carreira de escritora?

Myriam Campello: Jamais se envolva com pessoas importantes do meio literário. (É uma semibrincadeira, já que tal alerta obviamente não pode – e possivelmente nem deve – ser implementado)…

Reversa Magazine: Analisando o mercado editorial de hoje e de quando você escreveu seus primeiros livros, o que mudou e o que permanece do mesmo jeito?

Myriam Campello: Em sua quase totalidade o mercado endureceu, sem resquícios de idealismos.

O livro é um produto, ponto.

Só que como é sabão em pó e ao mesmo tempo não é, isso inclui algumas dificuldades irritantes. Mas a situação do livro acompanha o ritmo geral dos mercados contemporâneos que abrangem outras coisas.

Reversa Magazine: Você precisou trabalhar com algo de que não gostava para poder se manter?

Myriam Campello: No meu caso, nunca se tratou de não gostar.
A atividade de tradutora, que tenho exercido por longos anos, é interessante, importante e extremamente difícil. Sem ela não leríamos Platão, Kafka ou Dostoiévski, entre tantos outros.
Mas com freqüência é um trabalho subvalorizado financeiramente e toma um tempo precioso de quem quer escrever.

Como diz um amigo meu, a única diferença entre um tradutor e um remador das galés é o tambor marcando as remadas.

Reversa Magazine: Você acredita ser fundamental a troca e o apoio entre escritores?

Myriam Campello: A circulação é sempre importante entre pares profissionais.
Quanto ao apoio, claro. A solidariedade do meu gato também é algo muito bom.

Reversa Magazine: Você foi amiga do Caio Fernando Abreu. Como vocês se encontraram?

Myriam Campello: Conheci Caio no Rio quando éramos todos jovens e esperançosos.
Ele com sua autenticidade inabalável, uma mistura de serenidade e paixão. E o talento sempre presente nos textos.

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Reversa Magazine: O Caio foi um dos primeiros escritores a falar sobre homossexualidade em sua literatura. De alguma forma ele a incentivou na criação de suas personagens? Havia muito preconceito e intolerância na época no próprio mercado editorial, entre os escritores ou junto ao público?

Myriam Campello: Um pouco mais novo que eu, ele não poderia me incentivar em coisa alguma pela simples razão de que eu já era uma escritora pronta quando nos conhecemos.
Havia preconceito e intolerância em todos os setores mencionados, sem dúvida. Mas nos anos setenta e oitenta, apesar da ditadura, houve uma explosão libertária muito grande.
A homossexualidade, como tudo o mais, era discutida e vivida.
Éramos muito soltos, inovadores, revoltados com o horror político brasileiro. Forçávamos a barra mesmo, com muita loucura.
Foi uma época apavorante, mas paradoxalmente vivida com alto teor de felicidade subjetiva.

Reversa Magazine: Como foi ter um de seus livros, Como esquecer [lançado no Brasil em 2010 e estrelado por Ana Paula Arósio, Bianca Comparato e Murilo Rosa] adaptado para o cinema? Você pode contar como isso aconteceu? Gostou do resultado?

Myriam Campello: Uma amiga comum falou de meu livro à cineasta Malu de Martino. Malu o leu e decidiu adaptá-lo para o cinema.
Transformar palavra em imagem é uma das tarefas mais árduas que existem, já que as duas linguagens obedecem a exigências bem diferentes. Mas Malu o fez com muito talento.

Reversa Magazine: Nos anos 70, você viveu um ano em Nova York, em grande parte envolvida com o movimento feminista. Você pode falar sobre a importância dessa experiência?

Myriam Campello: A experiência com o feminismo americano foi uma revolução na minha vida. Ali estava o que eu sempre pensara e sentira articulado ideologicamente.
Algumas autoras da segunda leva do feminismo contemporâneo, como Kate Millett, Gloria Steinem, Adrienne Rich, Jill Johnston e outras foram fundamentais para mim como mulher, feminista e ser humano.
E, em conseqüência disso, como escritora também, residualmente.

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Reversa Magazine: Você continua envolvida com o feminismo? Após tantos anos, a luta continua a mesma?

Myriam Campello: É impossível deixar de ser feminista.
É um movimento político absolutamente necessário enquanto o feroz antagonismo à mulher continuar existindo. Todas as agressões perpetradas, das mais óbvias e criminosas às mais sutis, continuam sendo praticadas.
Para se ficar só no feijão com arroz, até hoje as mulheres ganham menos do que os homens pelo mesmo trabalho.
Apesar dos crimes e injustiças trombeteados diariamente pelos meios de comunicação, algumas mulheres, inacreditavelmente, posicionam-se contra o próprio feminismo que quer protegê-las.
Torço para que um dia o chip instalado na cabeça delas seja retirado.

Reversa Magazine: Você vai lançar o livro de contos “Palavras são para comer”, pela editora Oito e Meio, agora em março. O que o público deve esperar desse trabalho?

Myriam Campello: O que o público deve esperar não sei.
Eu espero que o leitor goste. Ou pelo menos que não durma enquanto leia.

Myriam Campello – Bibliografia

Cerimônia da Noite (romance)
Sortilegiu (romance)
São Sebastião Blues (romance)
Sons e outros Frutos (contos)
Como Esquecer – Anotações quase Inglesas (romance)
Jogo de Damas (romance)
Palavras são para comer (contos)

Imagens: Amazon.com.br // Google Imagens. 

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