Diga Não ao Trans Fake: Por que Artistas Lutam por Maior Representatividade Trans nas Artes Cênicas

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Manifesto estimula o debate sobre como a cultura pode reverter o quadro de exclusão ao oferecer oportunidades igualitárias de trabalho e emprego às pessoas trans



Brasil, 2017: em um cenário no qual pessoa trans sofrem diariamente todos os tipos de agressão, preconceito e exclusão, qual é a importância de dar espaço para que elas possam sair das esquinas – ou das manchetes policiais como dados estatísticos – ganhar os palcos e ocupar as telas?

Oferecer oportunidades a homens e mulheres trans que se dedicam às artes, de forma que possam atuar em todos os tipos de produção cultural, configura-se como algo muito maior do que apenas integrá-los a um meio de atuação profissional que a princípio já lhes seria de direito.

Mas, acima de tudo, trata-se da confirmação de um ato com desdobramentos em várias esferas, gerando representatividade e visibilidade – e quem sabe, mesmo que em um futuro não tão próximo, possibilitar a diminuição da violência.

Números que Confirmam a Exclusão



Quando se trata da questão trans o Brasil transbordam, indubitavelmente, inúmeras reflexões.

Muitas delas referentes às possíveis origens socioculturais de tanta intolerância e, principalmente, à expectativa de que as condições de vida da população trans possam vir a melhorar nos próximos anos.

Os dados confirmam o quanto, em relação a esse assunto, ainda é preciso ser feito:

Segundo o monitoramento realizado pela Rede Nacional de Pessoas Trans do Brasil, em 2017 foram registrados, até o momento, 87 homicídios, 38 tentativas de homicídio, 2 casos de suicídio e 62 casos de violação dedireitos humanos.

Em sua maioria, ocorridos entre pessoas de todos os cantos do país que, diante da inviabilidade de ingressarem no mercado de trabalho, entre vários outros fatores, acaba por adotar um estilo de vida marginalizado, que as expõe cotidianamente a riscos contra a sua integridade física, emocional e psicológica.

A Arte Como Ponte para a Inclusão


Apesar das dificuldades para serem vistos “apenas” como cidadãs e cidadãos com igualdade de deveres e direitos, uma parcela cada vez maior da população trans tem procurado alternativas de desenvolvimento de uma carreira profissional nas mais diferentes áreas.

Grande parte, por afinidade, aproxima-se da classe artística, que, ao menos em teoria, possui maior abertura quanto à diversidade, em todos os níveis.

Hoje há grupos, coletivos e iniciativas de todos os tipos, promovidas por e para pessoas da comunidade trans, de forma que esses homens e mulheres tenham a oportunidade de desenvolver os seus talentos para, futuramente, obter reconhecimento, trabalho e projeção.

As Origens da Transformação


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Essa é a pauta presente no Manifesto Representatividade Trans já.

Diga não ao Trans Fake, originalmente idealizado pela atriz e diretora santista Renata Carvalho, após a leitura de Olhares, de Claudia Wonder – crônicas e outras histórias, uma coletânea de matérias publicadas na revista G Magazine.

“No livro, encontrei uma entrevista que Claudia fez com a travesti e atriz Thelma Lipp, em 2002.”

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“Nela, Thelma revela que participou dos preparativos para o filme Carandiru, mas, quando as filmagens iriam começar, o diretor Hector Babenco a avisou que ela seria substituída ‘por questões de marketing’ pelo ator Rodrigo Santoro.”

“Thelma – que foi a resposta paulista a outro fenômeno de beleza dos anos 80, Roberta Close –, não aguentou o baque.”

“Caiu em depressão, voltou às drogas, cortou os cabelos, retirou os seios e morreu como Deodoro”.

Um fim trágico para uma vida que, na época, poderia ter tomado um rumo muito diferente, já que Claudia e Thelma haviam planejado desenvolver um trabalho junto ao Sindicato dos Artistas para que personagens trans possem preferencialmente interpretados por pessoas trans.

Mas um novo caminho viria, anos depois.

Com uma carreira em ascensão, incluindo, entre outros espetáculos, o aclamado monólogo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, (de autoria da escritora britânica Jo Clifford e dirigido por Natalia Mallo), Renata, que sempre vinha a público levantar as mesmas questões, resolveu dar continuidade à missão iniciada por Claudia e Thelma.

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“Procurei os artistas trans Léo Moreira Sá e Leona Jhovs. Escrevi o primeiro rascunho do manifesto e criamos juntos o Movimento Nacional de Artistas Trans.”

“Hoje, contamos com artistas de todo o Brasil. Somos atores, atrizes, [email protected], artistas plá[email protected], [email protected], [email protected], [email protected]…”

“Resolvemos nos unir, nos organizar e lutar contra o Trans Fake.




“Décadas de marginalização e estigmatização.”

Estamos sendo [email protected] diariamente e sempre com muita violência. São crimes de ódio e intolerância. Precisamos acabar com a Transfobia”.


Preconceitos e Mudanças Necessárias


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Uma das apoiadoras de Renata, a atriz e apresentadora paulistana Leona Jhovs – que atualmente interpreta, no espetáculo Curare (de autoria e direção de Paulo Faria), uma mulher trans no Brasil de 2084 – fala sobre a contribuição da arte e da cultura para o enriquecimento deste debate.

“Uma cultura que traz discussões ou reflexões sobre o universo trans contribui para que pessoas se atentem às diferenças e diversas formas de ser.”

“Como ainda somos a classe mais excluída da sociedade, acredito que nós, artistas trans, podemos colaborar para a desconstrução de crenças que até hoje só servem pra semear o falso moralismo, a discórdia e o ódio”.

Quando questionadas sobre o preconceito na classe artística, em especial nas artes cênicas, Renata e Leona reconhecem que há avanços, embora apontem dificuldades resultantes de valores, crenças e vícios praticados há longo tempo em todos os segmentos da sociedade.

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“Estamos em um momento ímpar, pois estão surgindo profissionais e projetos que fazem questão de favorecer a representatividade. Mas, no geral, ainda somos invisíveis e desrespeitados, questionam nossos talentos e nos excluem por sermos o que somos”, explica Leona.




“Olhares, cutucões, risos baixinhos. Não pensam na gente para fazer a mocinha da história, nunca.”

“As pessoas ficam surpresas porque eu sei falar um texto com intenção. Não nos enxergam como artistas”, conta Renata sobre o que ainda hoje pode ser comumente enfrentado por uma atriz trans durante uma seleção de elenco, por exemplo.

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“O teatro é um espaço mais democrático e tem acolhido mais artistas trans. Mas veículos de massa e de grande repercussão, como a televisão e o cinema, ainda resistem em nos empregar por medo de boicote à obra e publicidade negativa.”

“Muitas marcas se negam a apoiar os projetos, por despreparo par lidar com o tema, falta de visão política, de entendimento artístico e, o que é pior de tudo, porque nos julgam como artistas ‘menores’.

Mas estamos aqui, resistindo e lutando para mudar essa visão deturpada sobre nós”.

Apoio e Representatividade


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Sobre os reflexos do Manifesto Representatividade Trans já na comunidade cinematográfica, televisiva e teatral brasileira, Leona conta que a adesão e o apoio foram praticamente gerais.




“Logo, é quase impossível não entender a real função do nosso manifesto. Mas é claro que existe uma grande parcela que não compreendeu ou não quer compreender o quão é importante e significativo dar espaço e representatividade para que a sociedade se reconheça em nós”.

O manifesto está, aos poucos, surtindo efeito. Nos eventos e mesas por onde estamos passando, ele está sendo recebido com muito carinho e atenção pelos artistas e coletivos.”

Estamos dialogando, conversando, informando e esclarecendo todas as pessoas. E vamos estar sempre [email protected] a isso.

Alguns não tinham percepção sobre o tema, nem ideia de toda essa exclusão histórica, só quando tiveram conhecimento conseguiram refletir e enxergar a respeito.”

“Isso é natural, pois fomos [email protected] durante décadas. Inclusive a própria Carolina Ferraz, que faz uma travesti no filme A Glória e a Graça, gravou um vídeo em que afirma ter lido o nosso manifesto e que legitima a nossa causa.”

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“Ela ainda diz que nem as pessoas trans têm ideia do preconceito e exclusão que sofrem.

“Queremos que mais ‘nomes de peso’ declarem sua adesão ao nosso manifesto”, enfatiza Renata.

Flávio Ramos Tambellini, diretor do supracitado longa-metragem brasileiro A Glória e a Graça, (que, além de Carolina Ferraz no papel da travesti Glória, apresentou a atriz trans Carol Marra para interpretar a personagem Fedra, uma mulher cisgênero), opina sobre o manifesto:

“Achei importante e significativo. Lutar pelo direito de ter voz ativa é fundamental para uma classe que sempre foi oprimida e reprimida.”

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“Temos, porém, que ressaltar que atores necessitam de preparo, prática e tempo para desenvolverem seus talentos. E esse deve ser o caminho dos atores e atrizes trans.”

O pouco que conheço é motivo de minha admiração. Tenho certeza absoluta que, em alguns anos, teremos atores trans aptos para qualquer tipo de dramaturgia e personagens”.

O que Está por Vir?


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Em um trabalho que está longe de ter o seu fim, as projeções e expectativas são inúmeras.

Ainda há muito o que fazer e a conscientização de que é preciso oferecer oportunidades igualitárias de trabalho e emprego às pessoas trans, seja nas artes ou em quaisquer outros campos, já é algo capaz de fazer uma diferença considerável.

Renata Carvalho dá as palavras finais:

“Esperamos que, preferencialmente, artistas transgênero interpretem personagens transgêneros.”

Que atores e atrizes cisgênero não aceitem interpretar personagens transgênero. Esperamos que nem convidem mais artistas cisgênero para isso.

Precisamos de oportunidade e emprego.

Só vamos reverter esse quadro de exclusão quando nossa presença for normalizada, e a arte pode ajudar, e muito, nesta inclusão.

Precisamos reverter a transfobia.

“Esperamos que, um dia, o Trans Fake pegue tão mal como o Black Face.

Lutemos”.

Imagens: Google Imagens, Unplash, O Evangelho Segundo Jesus Rainha do Céu.
 


 

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