Bastidores de Shala: A Emocionante História de Pedro, Garoto à Espera da Adoção que é Vítima de Preconceitos

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O diretor João Inácio fala sobre os detalhes do seu curta-metragem, processo de produção e as suas inspirações no cinema

No final do ano passado, para minha surpresa, fui convidada para ser curadora do Festival Mix Brasil, edição 2016, dos curta-metragens brasileiros.

Após participar de todo o processo de escolha dos filmes, surgiu esse texto aqui, no qual apresento uma seleção de alguns curtas da mostra que mereciam a sua atenção e expliquei os motivos de tê-los escolhido e admirado.

Para mim, era só uma simples lista para não deixar de lado informações que considerei interessantes para você que lê os nossos conteúdos.

O que eu nunca imaginei é que cineastas, produtores e artistas começariam a entrar em contato comigo e a agradecerem por eu ter feito a lista.

É claro que muita gente que sabe como são nossos textos também compartilhou a matéria, que foi uma das mais lidas no Reversa Magazine no final de 2016.

Uma das pessoas que entraram em contato comigo foi o diretor João Inácio, de Belém, que teve o seu curta-metragem Shala selecionado para ser exibido nas sessões “Crescendo com a Diversidade”.

Na época, conversamos por mensagem privada, via Facebook, até eu receber a notícia de que o diretor viria a São Paulo para o Festival.

É claro que marcamos um café para nos conhecermos e papearmos, porém, a conexão foi tão forte que acabamos nos encontrando, no Festival Mix Brasil, em diversos momentos – seja para assistir a um filme, trocar uma palavra entre uma sessão e outra, ir ao show da As Bahias e a Cozinha Mineira, e claro, para um after Mix, quando atravessamos a rua para comer uma porção e beber algumas cervejinhas em um bar.

João me contou muita coisa sobre os bastidores que eu resolvi trazê-los aqui para você.

Desde pequena, sempre amei ver as cenas extras dos filmes, mais do que a obra em si. E é claro que me fascinei ao ouvir João contar todas as suas histórias de superação e crescimento para ‘gerar’ um curta sensacional durante 10 anos da sua vida.

Bem, eu fiz essa longa introdução antes de chegar à entrevista abaixo para que você entenda que o nosso papel, meu, da Cris, do Reversa e de [email protected] colunistas é sempre apresentar outra visão da cultura LGBT e até como chegarmos em uma informação para apresentá-la a você.

Portanto, diante dessa descoberta, nada melhor do que deixar o próprio diretor contar histórias sobre suas vivências.

Eu quero sempre trazer narrativas assim, mais “Joãos” para o Reversa, de obras que têm pouco espaço na mídia, mas que valem a pena ser descobertas.

E, se você não está entendendo nada do que eu estou falando, João, liberou, exclusivamente para o Reversa Magazine.

Assista ao trailer de Shala!

Mas, antes, confira a entrevista com o diretor do filme (e meu amigo) João Inácio:

Reversa Magazine: Como surgiu a ideia para o roteiro de Shala?

João Inácio: Minha mãe trabalhou por muitos anos na Fundação de Atendimento Socioeducativo do Pará (FASEPA).

A história de Pedro é inspirada em um dos muitos casos de crianças que vivem institucionalizadas e sofrem com o preconceito por parte das pessoas que trabalham e procuram esses espaços, criando sequelas para o resto da vida dessas crianças.

Conviver com essas histórias era algo que me feria muito.

Então eu resolvi reconstruí-la na ficção para que mais pessoas possam refletir sobre os temas velados do processo de adoção.

Reversa Magazine: Entre diversos assuntos focados em Shala, o mais explícito e importante diz respeito aos estereótipos adotados pelos pais em relação aos filhos versus os valores sociais.
Desde que lançou o filme, você recebeu algum feedback sobre pais que se viram refletidos ali?

João Inácio: Não diretamente. Mas percebo que o filme incomoda muito. Já vi pessoas saírem chorando da sala de cinema.

O filme leva a uma reavaliação dos próprios valores, as pessoas veem como ainda guardam preconceitos em muitos de seus valores.

Mas também há casos de libertação, como o de um marido de uma amiga, que revelou adorar a cor rosa e só teve coragem de falar sobre isso depois de conhecer a história contada por Shala.

Reversa Magazine: Quanto tempo demorou desde a criação do roteiro até a finalização do curta?

João Inácio: O processo de Shala foi muito árduo, durou dez anos.

Tive muitos problemas para levar todos os equipamentos de São Paulo para Belém e quase não consegui apoio local.

Durante esse processo, entrei em uma depressão profunda, que quase me derrubou, literalmente.

Repensei minha carreira, mas consegui superar.

Hoje me sinto mais forte que nunca, pronto para os próximos filmes e já tenho roteiros prontos.

Além disso, agora sou mais experiente.

Reversa Magazine: Como você descobriu o ator mirim (que também é principal) para o seu curta?

João Inácio: Tiago Assis foi um presente que Cláudio Barros me deu.

Cláudio, além de um amigo de longa data, é um especialista em encontrar atores mirins.

Ele descobriu a Eunice Baía, que interpretou a Tainá, no filme Tainá – A Origem, quando ganhei o prêmio do Ministério da Cultura (MinC), em um Concurso desse órgão do governo destinado ao Apoio à Produção Cinematográfica.

Ele foi a segunda pessoa a saber que eu ganhei o prêmio, depois da minha mãe.

Então, na longa procura por um ator, ele se deparou com o Tiago em uma escola de ballet em Belém.

Tiago era muito pequeno, mas incrivelmente determinado e profissional. Ele amou fazer o filme e é um dos maiores entusiastas da obra.

Reversa Magazine: Qual foi o grande desafio que você enfrentou com o seu curta?

João Inácio: Uma parte é fazer o filme em uma cidade com produções cinematográficas sazonais, onde profissionais locais migram, principalmente para o Rio e São Paulo, em busca de trabalho.

Como disse acima, todos os equipamentos de filmagem vieram de outras cidades e estados. Além de caro, isso é muito complicado.

Além disso, tive que convencer as pessoas a apoiarem um filme sobre uma criança pobre, abandonada, possivelmente homossexual, em uma história triste.

Sofri muito para manter minha ideia original.

Tive um possível patrocinador que disse que só iria apoiar a obra se eu mudasse o final do filme – o que, claro, não aconteceu.

Reversa Magazine: Conte para nós uma história de bastidores.

João Inácio: Era muito engraçado ver tantas crianças juntas nas filmagens.

Elas chegavam arrumadas, de cabelo engomado, roupa nova. Tomavam um café e logo depois tinham que mudar de roupa para compor os personagens com vestimentas velhas e características de um orfanato antigo.

Elas reclamavam que não queriam as roupas velhas e tínhamos que convencê-las a entrar no clima da história para que essa mudança pudesse acontecer.

Reversa Magazine: Quais são os seus próximos objetivos com Shala?

João Inácio: Estou inscrevendo o filme em muitos festivais.

Mas, em paralelo a essas plataformas de exibição e de divulgação, estou em contato com grupos de apoio à adoção e frentes de estudos sobre o tema.

Shala é um forte instrumento para discussões em palestras sobre esse assunto.

Outra frente para a exibição do filme é por intermédio da execução de música ao vivo. E temos uma versão dele sem música.

Em breve, haverá uma sessão do filme em Belém.

Estou sempre aberto a convites para exibições e parcerias.

Reversa Magazine: Há um local específico no qual você sonha exibir Shala? E por quê?

João Inácio: Vários, quero muito exibi-lo em Boston, local que me fez acreditar novamente no filme.

Também no Teatro da Paz, em Belém, seja com o acompanhamento de uma orquestra ou só com um piano ao vivo. Esse é um sonho antigo.

Reversa Magazine: Que cineastas e filmes são referência para você como diretor?

João Inácio: Lars von Trier. Com certeza ele me influencia muito, principalmente com “Dançando no Escuro”.

Adoro renovar minhas referencias com Alejandro González Iñárritu, Alfonso Cuarón, Andrei Kravchuk, Fernando Meirelles, Danny Boyle, Ang Lee… A lista é grande.

Reversa Magazine: Fora Shala, existe algum outro projeto no qual você está focado? Quais são os seus próximos objetivos?

João Inácio: Estou focado em um projeto sobre a descoberta da sexualidade entre dois jovens índios e das relações diferenciadas que eles encaram para suas vidas. Estou muito animado.

Além disso, tenho um roteiro para um longa sobre uma relação familiar, a busca por novas perspectivas e o extremismo.

Imagens: João Inácio // Shala.

 

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