Essas são as sugestões de bons livros que a nossa colunista de literatura indica para você

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A escritora Camila Passatuto apresenta sugestões de bons livros que merecem a sua atenção

Antes de tudo queria falar sobre a ação da leitura.

O ato de ler, na minha percepção, não deve levar o leitor à passividade de percorrer os olhos de forma ocidental pelas páginas de um livro.

Gosto de fazer da leitura um objeto de desconstrução da obra.

Começo pelo fim, adentro o clímax, antes das preliminares, e tento compreender o ínicio como desfecho. Sim, é algo que parece complicado e confuso, mas é minha doce mania de construir uma leitura única.

Quando se trata de um livro de poemas, tento realizar a desconstrução no corpo do texto e decodifico minha própria e sádica poesia no modo pecaminoso da leitura rebelde.

O leitor pode, e deve, ser agente do incômodo. Compositor do ritmo.

Mas bem, deixando de lado a questão de como ler ou não ler um livro, vamos aos meus queridinhos desse ano, 2016, sugestões de bons livros que farei uma breve análise de cada um.

Só devo avisar que as análises resultam da percepção que tive da obra em minha leitura linear, não se preocupem.

1) – Iluminuras – Arthur Rimbaud


Que Rimbaud é um bruxo quando se trata de envolver e fazer o leitor se perder pelos ares que ele poetiza, ninguém tem dúvida.

Apesar de Iluminuras ser citado por muitos como o “livro testamento” do escritor por ser este seu último trabalho antes de largar a literatura, não me trouxe nenhum aspecto de fim, pelo contrário.

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Em “Iluminuras”, o escritor jorra modernidade e uma estrutura visionária, que, mais tarde, serviria de inspiração para tantos outros escritores/poetas/músicos.

Iluminuras nos faz perder a linha do possível e nos entrega toda essa transcendentalidade de uma poética firme e mágica, que o meninão Rimbaud fez com capricho.

Trecho

“Uma noite ele cavalgava confiante. Um Gênio surgiu, beleza inefável, inconfessável mesmo. De sua fisionomia e sua presença emanava a promessa de um amor múltiplo e complexo! De alegria inominável, insuportável mesmo! O Príncipe e o Gênio se aniquilaram, quem sabe, em saúde essencial. Como não morreriam disso? Eles, enfim, morreram juntos. Mas o Príncipe morreu, em seu palácio, numa idade normal. O Príncipe era o gênio. O Gênio era o Príncipe.”

2) – Alma Inquieta – Olavo Bilac


Neste livro, Bilac se contorce e parece que convida – e espera – um suposto fim, o que o torna melancólico por diversas vezes no decorrer da leitura, a fazer parte da exaustão e da conformidade do que está surrado diante dos olhos.

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Trecho

“Quando uma virgem morre, uma estrela aparece,
Nova, no velho engaste zul do firmamento:
E a alma da que morreu, de momento em momento,
Na luz da que nasceu palpita e resplandece.”

(Poema Virgens Mortas)

3) – Antologia da Literatura Fantástica – Simone Ocampo, Adolfo Bioy, Jorge Luis Borges


Este livro reúne diversos contos e histórias do estilo ficção fantástica de vários escritores, aí, no time, você encontra Franz Kafka, H. G. Wells, Richard Burton e tantos outros.

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4) – Alfonsina Storni (Autora)


Bom, ainda não li um livro dela, mas pesquisei diversos poemas de autoria da escritora argentina pela internet, durante boa parte de 2016.

E peço para que pesquisem, conheçam e leiam a obra dessa mulher.

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Não vou falar muito sobre ela ou o que desenvolveu, deixarei aqui apenas um de seus poemas para “degustação”:

Homem Pequenino

Homem pequenino, homem pequenino,
solta teu canário que quer voar…
Eu sou teu canário, homem pequenino,
deixa-me saltar.

Estive na tua gaiola, homem pequenino,
homem pequenino que gaiola me dás.
Digo pequenino porque não me entendes,
nem me entenderás.

Também não te entendo, mas enquanto isso
abre-me a gaiola que quero escapar;
Homem pequenino, te amei meia hora,
não me peças mais.

5) – Mallarmé – Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos (Volume de Tradução)


Esse é um volume de tradução dos poemas de Stéphane Mallarmé.

No meio da leitura, me vi estudante de uma poesia ousada e cheia de ritmo.

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Destaque para as traduções impecáveis de Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos:

Trecho

“E em suas pernas onde a vítima se aninha,
Erguendo sob a crina a pele
negra aberta,
Insinua o céu torvo dessa boca experta,
Pálida e rosa
como um concha marinha.”

6) – A maçã no escuro – Clarice Lispector


Esse é o livro de Clarice que mais gosto. Sempre releio.

Por ser mais denso substancialmente, quando o personagem que vive em fuga começa a se questionar e desenrolar um pensamento voltado para o existencialismo, ah!

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De olhos fechados, leio e releio um romance que não me cansa.

7) – Eu e outras poesias – Augusto dos Anjos (releitura)


Outro livro que sempre releio é o Eu e outras poesias.

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Esse ano, reli mais uma vez e não tem como não indicar Augusto dos Anjos, um dos meus poetas preferidos.

Trecho

“Rasga essa máscara ótima de seda
E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos…
É noite, e, à noite, a escândalos e incestos
É natural que o instinto humano aceda!”

(Parte do poema A Um Mascarado).

8) – Roteiros para uma vida curta – Cristina Judar


Esse livro me causou espanto, risadas, apreensão e identificação.

Nele, vivi um ambiente moderno decorado com objetos antigos.

As relações e reações humanas que nos surpreendem estão lá, escritas de um modo totalmente elaborado, em diversos formatos de exposição dos textos.

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É um livro cheio de formas sobre como contar o óbvio, que, no fim, nos espanta com o caos que sempre aparece e faz o tal óbvio mostrar a real face do obscuro.

9) – Distraídas Astronautas – Simone Teodoro


Distraídas Astronautas mistura uma tristeza absurda, toques de safismo e uma doçura que amarga no final.

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Surpreendeu por atormentar algo em mim.

Trecho

“Na Rua dos Eucaliptos
existia um lago
onde nosso Bêbado Pai pescava
peixes desnutridos.”

(Parte do poema Rua dos eucaliptos)

10) – Nossa Teresa – Micheliny Verunschk


Nesta obra, Micheliny Verunschk brinca e nos oferece uma narrativa inteligente e perspicaz.

O livro já tem por tema algo incrível e instigante, o suicídio de uma santa, uma santa suicida, uma suicida que se torna santa.

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Tudo isso aliado a uma poética/narrativa bem elaborada.

Se esse ano li uma grande ficcionista contemporânea, essa foi Verunschk.
Gostou dessa lista especial?

Aproveite a oportunidade para conferir os outros textos e sugestões de bons livros que a Camila Passatuto já sugeriu aqui, no Reversa Magazine.

Imagens de livros foram retiradas do Google Imagens.

 

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