Os Detalhes do Documentário “Todas as meninas reunidas, vamos lá” sobre os 5 Anos do Projeto Girls Rock Camp Brasil

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As Cenas e os Sons de uma Riot Grrrl Invadem Cinemas



A cineasta brasileira Carol Fernandes tem muito o que contar.

De sua adolescência marcada de maneira definitiva pelo movimento punk feminista Riot Grrrl, ao fato de ela querer representar, assim como de se sentir representada como pessoa “fora dos padrões”, na mídia, das telas, do audiovisual.

Munida dessas aspirações, partiu para o Canadá, onde desenvolveu seus estudos de cinema e uma carreira como diretora de filmes com temática LGBTQ.

Nesse meio tempo, além de ser curadora da mostra de cinema Curta Queer, aqui no Brasil, envolveu-se na organização do Rock Camp for Girls Montreal, que consiste em um acampamento de uma semana, especialmente focado em promover o empoderamento de meninas e garotas por meio da prática musical em uma banda de rock e de várias outras atividades.

O projeto tem o seu equivalente em diferentes partes do mundo e também no nosso país:

Trata-se do Girls Rock Camp Brasil, que aqui existe há cinco anos e agora chega, pelas mãos de Carol e de uma equipe de profissionais (Flavia Biggs, Patricia Vinhão, Marianne Crestani, Mayra Biggs, Geisa França, Helena Duarte, Mari Aranha, Michele Brito, entre outras), às telas do cinema.


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O grande feito, o documentário em longa-metragem Todas as meninas reunidas, vamos lá, traz registros preciosos desses cinco anos de trabalho árduo, de conquistas e de intensa transformação, tanto por parte das organizadoras e voluntárias quanto das campistas.

Neste bate-papo exclusivo após o seu retorno ao Brasil, Carol Fernandes conta detalhes sobre seu trabalho, fala sobre a importância do feminismo em sua vida e em sua produção artística e dá detalhes sobre o longa-metragem Todas as meninas reunidas, vamos lá, que estreou recentemente nos cinemas brasileiros e, ao que tudo indica, terá uma trajetória promissora em festivas de cinema do Brasil e do mundo.


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Reversa Magazine: Oferecer às mulheres a oportunidade de criar canais próprios de expressão artística é uma das atitudes mais importantes que nós, como artistas e, decerta forma, “promotoras” de cultura podemos ter.
Você se identifica com essa visão em relação aos seus trabalhos?
De acordo com a qual você dá voz e “passa o bastão” do feminismo e da liberdade para outras mulheres?



Carol Fernandes: Eu acredito que o feminismo é intrínseco ao meu trabalho porque já não consigo ver o mundo de acordo com outra perspectiva, essa é a única maneira que eu sei interpretar as coisas.

Então, se o feminismo está ali, nas sutilezas de cada história contada, ele, de alguma maneira, está acessando o(a) expectador(a).

Essa liberdade vem quando a gente se vê representada, ou pelo menos se sente menos alienada, e entende que a nossa existência não é tão solitária.


Reversa Magazine: Sobre o seu trabalho prévio como fotógrafa e diretora de cinema, a temática queer / lésbica / LGBT é bastante presente e apresentada de forma orgânica, intuitiva até, sempre muito conectada ao contemporâneo, às camadas mais jovens da população. A linguagem e o tratamento visual escolhido para os seus trabalhos reflete a forma como você vive e quer transmitir informações, reflexões e mensagens?



Carol Fernandes: Sim, o meu trabalho está muito conectado à minha experiência pessoal no mundo, eu não saberia contar uma história com a qual eu não me identifico, não consigo sentir.

Além disso, raramente me senti representada na fotografia ou no cinema, profissionalmente também, mas antes disso, enquanto mulher queer gorda punk tatuada e feminista nas personagens dos filmes que assistia.

Eu gosto de contar histórias sobre as pessoas que eu conheço, sobre o meu universo familiar, de me sentir representada e de representar outras pessoas que normalmente não são representadas na mídia de uma forma geral.

Nós existimos, resistimos, e somos muitas, mas ainda fazemos parte de um “tipo” de cinema que especificamente foge à normatividade, e que escolhe falar sobre temáticas pouco comuns, apesar de essas temáticas representarem uma enorme parte da população.

Toda arte comunica, transmite informação, reflexões e mensagens, eu gosto de pensar que a minha arte reflete resistência, principalmente através de protagonistas que dificilmente têm esse espaço de protagonismo no cinema.

Eu busco falar do tempo em que vivo, das pessoas que vejo na vida real, por isso até hoje as protagonistas dos meus filmes são geralmente jovens, eu estou com 34 anos, ainda não escrevi personagens mais velhas porque estou começando agora a entender a maturidade, mas espero chegar lá.


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Reversa Magazine: Quais são suas maiores influências no cinema? Que técnicas, linguagens, movimentos e/ou obras você considera como importantes referências ou inspirações?



Carol Fernandes: Ah, essa pergunta é difícil.

Eu sou uma grande nerd.

Eu me formei em cinema com um major em direção de cena, mas no meu primeiro ano inteiro só fiz matérias em estudos teóricos, basicamente assistindo e discutindo uma média de oito filmes por semana.

Tenho diversas influências, antes achava que bebia de muitas fontes mas, quanto mais o tempo passa, percebo que eu sempre tive um foco.

Eu me interesso muito pelo cinema queer, que explora a quebra com a normatividade, tanto de gênero, sexualidade, mas também de linguagem.

Clássicos, como os filmes do John Waters, com a maravilhosa Divine; Born in Flames, da Lizzie Borden; os filmes da Jammie Babbit; Hedwig and the Angry Inch, de John Cameron Mitchell; e um dos meus preferidos, o Happy Together, do Wong Kar Wai, que foi, com certeza, um dos mais influentes esteticamente, mas também na sua narrativa, no seu tempo, e na sua sutil, porém muito eficaz, quebra com a heteronormatividade pela simples representação de um relacionamento “comum” entre dois homens, que foge dos relacionamentos normalmente representados no cinema.

Eu também me interesso muito pela cinematografia, por entender e explorar o movimento de câmera como parte da história, do que quero passar para além do movimento em si, então piro nos clássicos dos anos 30, quando ainda se filmava exclusivamente em película e cada movimento era muito bem pensado e articulado.

Hoje também valorizo muito curtas independentes que trabalham com orçamentos menores, mas que têm uma linguagem atual e forte.


Reversa Magazine: Sobre a mostra Curta Queer, como e onde surgiu essa ideia?



Carol Fernandes: A ideia da mostra surgiu no fim de 2016.

Eu ainda morava em Montreal, no Canadá, e queria vir para o Brasil em janeiro, aproveitando a oportunidade para trazer alguns dos meus filmes para passar aqui.

Ao conversar com a minha amiga Roberta Cibin, ela propôs de fazermos uma mostra de curtas queer, com curadoria minha, de alguns filmes do Canadá e outros do Brasil.

Conseguimos espaço na Cinemateca de Curitiba para fazer uma sessão gratuita, sem saber muito o que esperar.

Uma hora antes do início da sessão, a fila já dava a volta no quarteirão, o que
reflete a grande carência de mais iniciativas como essa, pois público não falta.

Tivemos que fazer duas sessões, uma na sequência da outra e, ainda assim, não pudemos receber todas as pessoas que compareceram.

Foi um sucesso.


Reversa Magazine: De que forma o feminismo e o movimento Riot grrrl determinou o que você é como artista e a sua obra em geral?



Carol Fernandes: Eu fui criada em uma família só de mulheres, com avó, mãe, tias e nenhum homem.

Meu pai foi embora quando eu nasci e minha mãe faleceu de AIDS quando eu tinha nove anos.

Como muitas de nós, eu era a menina esquisitinha da escola que não tinha mãe nem pai e muitos problemas de socialização.

Aos 14 anos, tive meu primeiro contato com o Riot Grrrl e o feminismo, uma amiga me deu uma mixtape com as bandas Sleater-Kinney, Dominatrix, Bratmobile e algumas outras formadas por mulheres.

Minha vida mudou.

Eu comecei a tocar numa banda chamada Dynamo, me fortaleci com o apoio e a resistência da militância feminista e do punk.

Um dia, um menino da escola que sempre me dava uns tapões na cabeça veio já pronto pro tapa e se surpreendeu quando eu peguei uma carteira e joguei em cima dele.

Nunca mais, nunca mais eu senti medo.

Depois disso vieram várias bandas, muitos rolês, muito boy querendo atravessar, muito xingamento, muito ódio numa época em que o feminismo ainda não tinha alcançado o espaço que tem hoje.

Mas também muita gente maravilhosa que, assim como eu, era “esquisitinha”, até eu entender que éramos muitas, e isso se transformou no ponto central da minha vida.

Fortalecer e empoderar outras pessoas que, como eu, não se encaixavam na sociedade patriarcal e heteronormativa que vivemos.

Eu sobrevivi por causa do feminismo e eu resisto por causa do feminismo.

A minha obra fala sobre resistência e reflete esse caminho.




Assista ao trailer do filme “Todas as meninas reunidas, vamos lá”:







Reversa Magazine: Qual é o maior legado do Girls Rock Camp?
Como foi e tem sido o seu envolvimento com esse projeto?



Carol Fernandes: Essa é uma história de amor de quase oito anos.

Meu primeiro Rock Camp for Girls foi em Montreal, em 2010.

Logo que me mudei pra lá, me inscrevi como voluntária para fazer produção de banda e me apaixonei pelo projeto.

Depois disso, comecei a fazer toda a parte de arrecadação de fundos pro Rock Camp for Girls Montreal, fui membro do conselho administrativo, passei por tudo quanto é função, desde cozinhar na semana do acampamento até dar oficinas e aconselhamento.

Ano passado, assumi o cargo de diretora, do qual tive que me despedir esse ano para voltar ao Brasil.

De lá eu acompanhava de perto o crescimento do Girls Rock Camp Brasil, formado pelas minhas amigas queridas de quase 20 anos, Flavia Biggs, Patricia Vinhão,Marianne Crestani, Mayra Biggs, Geisa França, Helena Duarte, Mari Aranha, etc.

Sempre quis participar e, esse ano, finalmente consegui vir.

Foi mágico, me reapaixonei pelo Brasil, pelas amigas, e voltei.

Atualmente eu faço parte da organização do Girls Rock Camp Brasil e do Girls Rock Camp Curitiba, que terá sua primeira edição em 2018.

O Girls Rock Camp é a maior prova de que a empatia, a solidariedade, a coletividade, o apoio mútuo entre meninas e mulheres fortalece e empodera essas meninas para a transformação de uma sociedade mais igualitária e justa, na qual elas podem escolher o papel que querem desempenhar sem restrições
baseadas em gênero.

É uma sementinha plantada e espalhada pelo mundo, do micro para o macro.

Cada uma dessas meninas e mulheres sai da semana do acampamento pronta pra levar toda a positividade do impacto dessa experiência para a vida, transformando o mundo em volta delas.


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Reversa Magazine: A produção e o lançamento do longa-metragem “Todas as meninas reunidas, vamos lá” é o resultado de todo um processo de envolvimento com o Girls Rock Camp e, ao mesmo tempo, de um momento significativo de sua carreira como fotógrafa e, especialmente como cineasta.
Como foi esse processo?



Carol Fernandes: Foi um processo longo (risos).

Foi o momento em que todos os meus mundos se uniram de um jeito muito inesperado e maluco.

Esse foi um ano muito importante pra minha carreira, meio que sem planejar eu acabei voltando para o Brasil.

Depois de sete anos fora, estou tendo que, de certa forma, recomeçar, o que é sempre um processo difícil e cheio de obstáculos.

Mas foi também um ano de muitos projetos maravilhosos, dentre eles a oportunidade de dirigir o documentário em janeiro, primeiro com a ideia de fazer um curta-metragem de uns 15 minutos em comemoração aos cinco anos do Girls Rock Camp Brasil.

Depois, a ideia acabou interessando a Paris Filmes através da Mirna Nogueira (que trabalha na distribuidora e conhecia o projeto), e acabamos fechando a distribuição nacional com eles com a condição de que entregássemos um longa-metragem.

Foi uma reviravolta total, largamos tudo e mergulhamos de cabeça em cinco anos de registro, eram muitos formatos de câmera e de áudio diferentes, qualidades de captação diferentes, mas muita história linda pra contar.

Estou há seis meses imersa nesse filme, em meio ao retorno pra casa, de muitas mudanças na minha vida pessoal e de um novo momento
na minha carreira de direção.

Me sinto honrada de ter como meu primeiro longa, comemorando quase 15 anos de carreira e também comemorando os cinco anos do Girls Rock Camp Brasil, um filme sobre um projeto no qual acredito com todo o meu coração, feito com pessoas que eu respeito e que me inspiram.


Reversa Magazine: A ideia de dirigir o documentário surgiu em qual momento?



Carol Fernandes: Uma das principais fomentadoras dessa ideia foi a Patricia Saltara, carinhosamente conhecida como *Vinhão*, junto com a organização do Girls Rock Camp Brasil.

Foi a convite dela que eu vim dirigir o material de comemoração dos cinco anos do acampamento e que, mais tarde, conseguimos transformar num longa-metragem com exibição nos cinemas.


Reversa Magazine: Quanto tempo o filme levou para ser realizado?
Você pode dar detalhes sobre as filmagens e a produção?



Carol Fernandes: Todo ano, o Girls Rock Camp Brasil forma uma equipe voluntária de fotógrafas e videastas que, com equipamento próprio, doam seu tempo e talento para fazer o registro da semana de acampamento.

Em janeiro de 2017, formamos uma equipe especificamente voltada para a realização do documentário em comemoração aos cinco anos do projeto.

Éramos duas entrevistadoras, duas operadoras de câmera e uma captadora de som gravando campistas e voluntárias.

Em maio, quando fechamos com a Paris Filmes, corremos contra o tempo para fazer algumas entrevistas complementares e conseguir montar o filme.

Infelizmente, não conseguimos tempo nem verba pra fazer todas as entrevistas que achávamos importantes, mas focamos em algumas personagens principais pra narrar essa história desde antes do acampamento, com foco também na importância de projetos de transformação social, de onde surgiu a necessidade de fazer o Girls Rock Camp Brasil.

Eu, Marianne Crestani e Michele Brito paramos a vida por umas semanas pra nos dedicarmos à seleção e à edição de todo o material dos cinco anos de registro, somado às novas entrevistas, dentro de um roteiro montado por mim.

É um processo meio sem fim, além de dirigir e roteirizar, acabei cuidado de toda a parte de produção executiva, coordenando pós, mídia e redes sociais.


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Reversa Magazine: A equipe que desenvolveu o filme é toda formada por mulheres que, de diferentes formas, estiveram e estão envolvidas com o Girls Rock Camp Brasil.
Qual é a importância (e o consequente impacto no resultado final) de contar com artistas, educadoras e profissionais com uma relação tão fortee significativa em relação ao projeto?



Carol Fernandes: O mais importante de tudo é que esse filme é de todas as voluntárias e campistas que, todo ano, fazem do Girls Rock Camp Brasil um lugar mágico e merecedor de um longa-metragem pra contar essa história.

Numa das entrevistas, Flavia Biggs, a diretora do projeto, conta porque é importante contar essa história – ela explica tão bem que vou parafrasear.

“Se a gente não contar a nossa própria história, quem é que vai contar? E como vai contar?”.

A maior recompensa que recebi depois do filme estar pronto foram as mensagens das organizadoras e de algumas voluntárias que estão longe e só assistiram ao filme online, dizendo que o amaram e se sentiram representadas.

A Flavia mandou um audio no nosso grupo de WhatsApp chorando, emocionada, e, naquele momento, eu finalmente relaxei.

Mesmo se ninguém mais gostar, as pessoas mais importantes pra esse filme, que são as protagonistas dessa história na vida real, gostaram.

E é isso o que importa.


Reversa Magazine: Quais são os próximos planos para o filme? Ele participará de festivais?



Carol Fernandes: Sim, após a estreia nos circuitos comercias de salas de cinema, a gente vai começar o circuito de festivais.

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Reversa Magazine: No momento você tem algum outro projeto engatilhado?


Carol Fernandes: A minha meta nos últimos oito anos tem sido fazer um filme por ano.

A ano de 2017 foi o mais produtivo, pois fiz alguns curtas e o meu primeiro longa, além de ter dirigido alguns filmes publicitários.

Em 2018, quero continuar crescendo como diretora e, nesse momento, procuro uma produtora pra chamar de casa pra me dar apoio e me ajudar a evoluir na carreira de direção.

No momento, estou trabalhando numa série de curtas chamada Eu Te Vejo, que já está com dois episódios no ar – estou editando o terceiro.

Além disso, tenho dirigido materiais publicitários e estou no processo de escrever o roteiro de um novo longa-metragem de ficção narrativa com o título provisório de Parafusos, sobre a vida de uma mulher de 30 anos que tenta se encontrar na cidade de São Paulo.



Imagens: Facebook Todas as menina reunidas, vamos lá.


 

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